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segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Erdély

É um ondulado constante, sempre igual sem arestas, sempre verde mas não de floresta.
Os Cárpatos são também a Transilvânia, Erdély na língua húngara, um acidente geográfico que resultou desde sempre em natural divisão política e por consequência em diferenciação social. As linhas de fronteira que os homens admitiram coincidir desde sempre com a morfologia do terreno são os limites das grandes planícies da Hungria, onde as ambições de ocupantes e invasores se satisfaziam. Foram afinal os constantes conflitos militares que provocaram a repartição do reino e portanto a separação da Transilvânia, não tanto a dissociação das etnias porque em verdade nunca foram unidas. Se por um lado o Tratado de Trianon definiu uma alienação que desde há muito já estava definida pelas gentes, a decepção do mesmo foi tornar o território numa província do reino romeno.
Apesar de actualmente a religião em preferencia ser a ortodoxa ao invés da católica, os povos da Transilvânia assimilaram a língua romena (latina) sem anular porém o húngaro (fino-úgrico). Ali também se encontram populações de etnia Rom, curiosamente tão antigas nestas paragens como as de origem magyar. O som das suas palavras é internacional e independente de idiomas, bem como o modo vestir, agir e interagir com os demais.
As aldeias e lugares apresentam exactamente a mesma organização urbanística verificada na Hungria, as casas, de forma rectangular, estão implantadas sempre perpendicularmente à estrada que atravessa as povoações (contudo afastadas da mesma) e paralelas entre si.
Junto aos portões das entradas quase todas têm um banco protegido por um telheiro, onde as provincianas mais velhas aproveitam alguma luz e calor do sol enquanto as horas passam de conversa e as movimentações “alienígenas” são monitorizadas.
Demográficamente aquele interior (compreendendo interior tudo o que é afastado dos grandes centros urbanos) não é diferente das estatísticas para o espaço europeu, população envelhecida e ainda bastante dependente da agricultura.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Pérolas arquitectónicas da Transilvânia

Demonstrar estaticamente orgulho na etnia a que se pertence não é coisa habitual entre os ciganos, habituados alguns a uma espécie de nomadismo, outros à permanência demorada com preparos bastante rudimentares, muito poucos ao luxo.
Excepção a esta regra acontece na Transilvânia, a norte da Roménia, onde o passado húngaro ainda é recordado actualmente através da língua que afinal tem uma influência expressiva na cultura, tradição e religião das populações.

Apesar de existirem bastantes ciganos tanto na Hungria como na Roménia, é somente na Roménia que se encontram as famílias prósperas (infelizmente ali se verificam porém os extremos da pobreza na mesma etnia), com riqueza material e até poder político.

É afinal a única explicação que se pode dar ao fenómeno arquitectónico que está à vista, obras novas licenciadas ou simplesmente toleradas, autênticas “pérolas” futuristas com harmonia estética incomparável.

Alguns destas construções estão literalmente encostados aos edifícios vizinhos, com o privilégio ímpar no direito de vistas entre varandas de apenas alguns centímetros, coisa absolutamente natural, fundamental e necessária, tendo em conta que se tratam de habitações unifamiliares.

A expressão “construiu uma casa meio aciganada” é típica e comum para criticar a casa nova que o vizinho edificou e de que não se gosta por alguma razão.

Pode até parecer pejorativa qualquer primeira análise do assunto, mas a coisa é séria e deve ser entendida no seu contexto.

Apesar dos materias de base serem fracos ou impróprios (exemplo de construções em que as alvenarias são parcialmente em blocos de cimento de boa qualidade, conjugados com blocos do tipo caseiro e rematados com tijolo maciço refractário e usado), serem utilizados materias aproveitados de outras obras distintas e o projecto ser coisa dinâmica (o objecto final resulta diferente do objecto projectado pelo arquitecto ou artista equivalente), nos acabamentos tudo muda de figura, que o “dono-da-obra” (cigano rico e poderoso) investe forte nos apêndices decorativos até aos limites da sua imaginação e capacidade artística de serralheiros e artesãos da forja.

O que é certo é que cada obra resulta em moradia imponente, cumprindo o objectivo para o qual foi pensado, realiza os sonhos de muitas famílias e acaba em atração turística enquanto fenómeno sócio-cultural.

Qualquer semelhança entre as casas dos ciganos romenos e os pagodes budistas é mera coincidência porque as técnicas e os propósitos são distintos.

sábado, 22 de dezembro de 2007

A Roménia de Estaline

Ali bem no centro de Bucareste, junto ao Hotel Intercontinental há um restaurante muito bom, onde se comem os pratos tradicionais da Roménia, com especial destaque para o guisado de carne de urso, onde o piano empresta um ambiente contrastante com os troféus pregados nas paredes da cave e restante decoração condizente. As empregadas que servem à mesa apresentam-se a rigor com vestidos de alças abertas, daqueles que empurram os seios para fora dos decotes das blusas brancas mal abotoadas por cordões cruzados, o que significa que tendo algumas o privilégio da fartura, animam o ambiente motivadas por hábitos atrevidos de boa disposição.
O camarada Estaline, tal como a expressão da pintura preservada no Museu de História parece revelar, também devia frequentar lugares desse tal conforto, que a sua vida não era seguramente dedicada em exclusivo às artes de violência gratuita próprias de uma eficaz governação sem expectativas de sobressalto, típicas de uma personalidade intolerante, i.e. com coerência ideológica.
O Secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética e do Comité Central desde 1922 até 1953, nasceu em Gori, na Geórgia, a 18 de Dezembro de 1878. Filho de um sapateiro e de uma costureira, Estaline foi editor do Jornal Pravda antes da revolução de 1917 (derrube do regime czarista) e sucedeu a Lenine no comando da URSS dois anos antes do seu falecimento.
Estaline foi responsável, no decurso da sua governação pelos maiores genocídios alguma vez cometidos fora de tempos de guerra, contra o seu próprio povo. No início dos anos 30 uma reorganização social baseada na privação de alimento a umas 7,5 milhões de pessoas, na maioria ucranianos, acções persecutórias massivas contra todos os opositores políticos, por assassinato. Nos anos 40 cerca de 3,5 milhões de pessoas foram deportadas para a Sibéria ou para os extremos asiáticos, principalmente ucranianos, polacos, alemães, checos, lituanos, letões, búlgaros, arménios, gregos, finlandeses, coreanos e também judeus.
Alimentando um “culto de personalidade”, o domínio de Estaline sobre o poder político de alguns “Estados operários” de maior relevo económico, o caso da República Democrática Alemã, Hungria, Checoslováquia e Roménia, era baseado num sistema político soviético, de poderosa estrutura militar e eficaz policiamento.
Enquanto Lenine afirmava coisas tais como: "A fome tem várias consequências positivas (...) a fome nos aproxima de nosso alvo final, o socialismo, etapa imediatamente posterior ao capitalismo. A fome destrói assim a fé não somente no Czar, mas também em Deus", referindo-se à fé religiosa configurada pela Igreja Ortodoxa, Estaline tinha uma exactamente oposta postura perante o mesmo tema, que a Igreja Ortodoxa se tornou fiel aliada, suportando o líder no controlo das massas, estimulando os crentes na defesa da pátria contra as invasões germânicas, instando o povo a se excluir de opinião ou conjuração política.
A Roménia conta por exemplo com cerca de 80% da sua população crente na fé Ortodoxa, enquanto católicos ou protestantes não ascendem a 5%. Será resultado de décadas de uma espécie de Teologia da libertação, onde o povo pobre e desprotegido de toda uma máquina de violência e repressão incontornável se encontrou com Deus.
Aos Domingos de manhã é fácil observar o que se passa na capital, os munícipes assistem às missas com muita devoção e as igrejas estão apinhadas. Retábulos, iluminuras, pinturas de toda a espécie, antigas ou modernas encontram-se à venda em diversas lojas de artigos religiosos.
A Igreja Ortodoxa romena foi de certo modo suportada pelo poder político socialista, em detrimento da liberdade em fé distinta. Assim se explica como a Transilvânia, tendo sido província húngara e assim de fé católica durante mais de 1000 anos, em menos de um século sob administração romena e condição política reservada ao comunismo, transformou as estatísticas, ou seja, a crença do povo.
Apesar de tudo, a Transilvânia é um lugar muito especial, em termos sociológicos. A população dos lugares de província mantém o idioma magyar a par do romeno, coisa que passa de pais para filhos naturalmente, tal como a arquitectura tradicional mantém as características dos antecedentes húngaros porque a população realmente não se desconectou das suas origens.

sábado, 3 de novembro de 2007

Bucureşti

Bucureşti é a capital da Roménia.
Originalmente com o nome Cetatea Dâmboviţa (o mesmo nome do rio que banha a cidade, afluente do Danúbio), Bucareste é também conhecida como “Paris do Leste”, numa organização urbanística de largas avenidas, grandes lagos (Floreasca, Tei, Colentina) e belíssimos parques, como é o caso do Herăstrău e o do jardim botânico.
A quantidade de edifícios ao estilo Art noveau é considerável, embora a actual pressão imobiliária garanta a eliminação desse património a curto prazo, coisa que não é de estranhar tendo em conta que o planeamento urbano precedente (da era comunista) também não considerou importante esse factor.
Bucareste apesar de estar entre as maiores cidades europeias, não está entre as mais antigas nem seguramente entre as mais belas.
Constantemente destruída por desastres naturais e diversas acções humanas, Bucareste foi sistematicamente ocupada pelo Império Otomano em disputa com o Império Austro-húngaro e pela Rússia numa alternância de propriedade até à Guerra da Crimeia, passando pelos efeitos de influência da revolução húngara de 1848 e retomada ao poder dos austríacos até ao ano de 1857.
Um grande incêndio em 1847 fez desaparecer mais de 2000 edifícios (um terço do parque nessa altura), e o grande terramoto de 1977 (7,4 na escala de Richter) também levou a uma considerável reorganização urbana, sendo que as grandes e largas avenidas estão repletas de edifícios relativamente recentes com uma arquitectura pouco ou nada interessante.
Por detrás desses grandes blocos de apartamentos sociais, inteiros quarteirões escondidos são simples casas térreas, por vezes pequenos palacetes desfigurados ou sem conservação conveniente.
Junto ao centro encontram-se edifícios governamentais de dimensões megalómanas e de arquitectura também pouco atraente misturados com palácios esplêndidos e belos edifícios onde universidades e institutos funcionam.
Bucareste foi fundada no século XV, tendo passado a capital da Valáquia sob domínio Turco (Otomano) em 1659 e capital do Principado da Roménia em 1861 quando a Valáquia e a Moldávia se uniram após as guerras turco-russas (somente em 1881 foi proclamado Reino da Roménia, independente dos austríacos).
Entre Dezembro de 1916 e Novembro de 1918 a Roménia esteve sob ocupação das forças alemãs (a capital foi temporariamente transferida para Iaşi).
Já na Segunda Guerra Mundial aconteceu ter-se unido ao Eixo dominado pelos alemães, o que levou Bucareste a ser fortemente bombardeada pelos aliados até ao momento em que o Rei Mihai I (em finais de 1944) estabelece acordos reversivos de aliança com Stalin e Winston Churchil ( no mesmo ano em que a Hungria por outro lado passou a apoiar os alemães, tornando-se natural inimiga da Roménia). Esse afastamento do Eixo teve como consequência um novo bombardeamento (pela primeira vez alemão) sobre a capital. Injustamente, a União Soviética libertou a Roménia e desmantelou a monarquia.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Segesvár

Vlad II foi um Cavaleiro da Ordem do Dragão, ordenado pelo Sacro Imperador Romano-Germânico, Sigismund da Casa de Luxemburgo, (Soberano da Germânia, Hungria e Boémia) no ano de 1431. A Ordem do Dragão foi uma instituição católica criada para impedir a invasão dos Turcos otomanos na Europa oriental. Na língua romena, o sufixo "ea" indica um filho. Portanto, Vlad III, sendo filho de Vlad Dracul, passou a ser chamado "Draculea", ou seja "Filho do Dragão".
Vlad III, foi Voivoda (príncipe) da Valáquia em 1448, de 1456 a 1462 e em 1472 e nasceu em Segesvár (Sighişoara em romeno, Schäßburg em alemão) no ano de 1431. A sua casa ainda está de pé nos dias de hoje, localizada numa zona próspera de habitações dos mercadores Saxões e Magyares, e pelas casas dos nobres.
Fora da Roménia, o Voivoda tornou-se conhecido por contos que exageram suas atrocidades contra inimigos, sendo que muitos dos actos que lhe estão atribuídos são de veracidade duvidosa. Alguns sustentam que essas lendas teriam inspirado o escritor Bram Stoker a criar seu famoso personagem, o Conde do romance Drácula. Sendo verdade que tratava os seus súbditos com preversidade e os seus inimigos com extrema crueldade, o Voivoda tinha o hábito de empalar os inimigos, atravessando-os com uma estaca de madeira. O número de mortos chegaria às dezenas de milhar. Por causa disso, Vlad III ganhou ainda outro nome: Vlad Ţepeş (Tsepesh), "O Empalador". Outra lenda a seu respeito teria surgido depois da invasão (recuperação territorial) da Valáquia pela Hungria, em 1447. Nessa ocasião, Vlad II e seu filho mais velho, Mircea, foram assassinados. Em 1456, Vlad III retornou à região e retomou controle das terras, assumindo novamente o trono da Valáquia. Esse retorno tardio de Vlad III teria confundido os moradores da região, que pensaram ser Vlad II retornando anos depois de sua morte. Isso teria ajudado a criar a lenda de sua imortalidade.
Em 1462, Vlad III perdeu o trono para seu irmão Radu, que havia se aliado aos turcos. Preso na Hungria até 1474, Vlad III morreu dois anos depois, ainda tentando recuperar o trono da Valáquia. A Valáquia era um território integrado na Transilvânia (Erdélyi para os Húngaros). Desde a ocupação Húngara do século X, este território sofreu invasões, nomeadamente por parte dos Mongóis e dos Turcos (século XV). Posteriormente recuperado definitivamente pelos poderosos exércitos do Império Austro-Húngaro. A história da soberania, independência e dependência da Valáquia aos Húngaros, Otomanos e Austro-Húngaros é tudo menos honrosa. Os dignatários deste trono geriram a sua permanência com base em alianças oportunistas com o inimigo/amigo mais forte, ou seja um historial de traição, subjugação e exílios constantes. É digno de nota que os menos tolerantes a este “jogo” sempre foram os Húngaros (relevo para as batalhas travadas pelos soberanos Mathyas Hunyadi e János Hunyadi da ordem dos cristã “Cavaleiros brancos”) que ripostavam com grande violência e rancor à falta de lealdade persistente dos ducados transilvanos e da Valáquia pelas suas negociações de conveniência com Otomanos (recordar que a Hungria representava a fé católica e os Turcos a fé islâmica).
A postura que a monarquia Húngara sempre adoptou quanto à alienação territorial (quer por invasões de potências estrangeiras quer por movimentos independentistas), durante os seus mil anos de existência até ao primeiro quartel do século XX, foi invariavelmente determinada e intolerante, que resultou no que hoje está à vista, todos os seus vizinhos (excepto a Áustria e a Ucrânia), são países que outrora foram províncias da Hungria (Eslováquia, Eslovénia, Croácia, o norte da Sérvia e a Transilvânia, uma enorme parcela da Roménia). Isto tem uma explicação: A unidade nacional nunca existiu porque a Hungria era composta por diversas Nações dentro de um só Estado (principalmente povos eslavos e germânicos). Se a Monarquia impunha a supremacia do povo Magyar sobre os outros povos pelos meios da força, tornou-se óbvio e compreensível que esses povos nunca se tornaram apoiantes vigorosos dos Magyares quer nas guerras contra os Turcos, quer nas revoltas de independência da Hungria contra os Habsburgos da Áustria e muito menos na primeira guerra mundial (pois que na segunda guerra esses povos já eram os inimigos da Hungria).
A actualidade é aquela que se pode sentir, a Hungria tem um isolamento social e cultural, sem meios de força (condicionados pelas duas guerras mundiais onde se aliou aos eixos derrotados) fechou-se dentro do seu território com o mesmo sentido de superioridade e orgulho nacionalista de sempre, é rodeada por países (cinco deles co-membros da União Europeia) com quem não mantém relações saudáveis (recíprocas) diferentes das comerciais. Se o “Pacto de Varsóvia” não resultou numa aproximação amigável entre estes povos, dificilmente a “União Europeia” o conseguirá (se isso importa para essa instituição).
A paisagem da Transilvânia não é muito diferente da paisagem encontrada na Hungria. Predominantemente verde e de muita planície, a floresta pouco densa eleva-se suavemente nos Cárpatos, um sistema montanhoso de pouco esforço a transpor, não fosse a qualidade deplorável da estradas da Roménia, que inexoravelmente contrasta com a magnífica qualidade da rede de auto-estradas que a Hungria estabeleceu desde a sua capital até às fronteiras dos países vizinhos.
As cidades, bem como as vilas e aldeias da Transilvânia, mantêm um sistema de toponímia bilingue (Húngaro e Romeno), sendo que as pequenas povoações têm uma estrutura urbana muito similar às da Hungria, embora em muito pior estado e com autênticas aberrações arquitectónicas recentes (exemplo das casas de famílias ciganas).
O Magyar não é a língua oficial, mas uma larga percentagem da população mantém o idioma (que passa de pais para filhos) num estado corrente.
Segesvár fica a cerca de 175 quilómetros de Bucareste e a mais de 500 de Budapeste. O seu centro histórico é património classificado pela UNESCO. A torre do relógio construída em 1556, com os seus 64 metros de altura é a edificação mais emblemática desta pequena cidade que ainda preserva uma muralha de protecção ao casario de época medieval e também um espírito comercial moderado (que a clientela não abunda em paragens tão longínquas) sobre um Príncipe que nunca foi Conde nem Vampiro mas a farsa é afinal a razão de atracção turística.