segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Quando os olhos estiverem prontos

Na companhia dos “eus” que ambos construíram, combinaram trocas, visões mais ou menos científicas sobre formas geométricas e movimentos contínuos por amor na cidade: Victor por Luísa.
Histórias inventadas de amor verdadeiro e insistentes movimentos cruzaram duas cidades da Europa sem que se conhecessem por sentidos. Mesmo assim, contrariando a razão e a lógica, os seus “eus” apaixonaram-se assim como os poetas... fingindo completamente, chegando até a fingir a dor de uma alma que não têm.
Mas porque as palavras não adormecem, dependem apenas da prontidão do olhar, a estrada que acaba no mar poderá ser vista de perto.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Victor Vasarely

Győző Vásárhelyi nasceu a 9 de Abril de 1908 em Pécs na Hungria, e morreu a 15 de Março de 1997 em Paris. Estudou em Budapest e foi para Paris, onde trabalhou como designer gráfico em diversas empresas de publicidade.
Entre 1946 e 1948, depois de um período de expressão figurativa, optou pela arte construtivista e geométrica abstracta. Experimentou o uso de transparências e cores em projecções, produziu tapeçarias e publicou as suas primeiras gravuras. Os seus quadros combinam variações de círculos, quadrados e triângulos, por vezes com gradações de cores puras, para criar imagens abstractas e ondulantes. Viajou por muitos países e recebeu diversos prémios.
Victor Vasarely é um dos principais artistas do movimento Op Art . A expressão vem do inglês "optical art" e significa “arte óptica”. Apesar do rigor com que é construída, simboliza um mundo mutável e instável, que não se mantém nunca o mesmo. Mais próxima das ciências do que das humanidades, as suas possibilidades parecem ser tão ilimitadas quanto as da ciência e da tecnologia.
Outros artistas Op Art dignos de nota são Alexander Calder e Youri Messen-Jaschin.
Artigo cedido gentilmente pela autora do Blogue "A dobra do grito", onde originalmente foi publicado.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Pöttyös

A Pöttyös az igazi! é o slogan do mais famoso e provavelmente mais vendido chocolate húngaro, o Pöttyös.
Pöttyös significa “pintas” e o chocolate é um túró rudi, ou seja uma “barrinha de requeijão”.
O requeijão pertence à gastronomia tradicional da Hungria, utilizado em muitos pratos típicos e doçaria regional. Assim sendo, é tão comum encontrar túró salgado junto com batatas e ovo cozido por exemplo, ou adocicado no recheio de um crêpe (palacsinta).
É difícil portanto encontrar um húngaro que não aprecie um Pöttyös, ou quase crime dizer que não se gosta dessas pequenas barrinhas suculentas de requeijão doce revestidas com uma camada fina e estaladiça de chocolate negro.
Os verdadeiros apreciadores, ou seja aqueles que não se contentam com uma barrinha de apenas 30 gramas , têm a opção óriás, isto é, gigante, uma barra com 51 gramas e naturalmente um pouco maior (o adjectivo utilizado não corresponde à realidade objectiva), ou até mesmo algumas variantes do Natúr, nomeadamente:
O Tejes – igual ao Natúr mas com diferença no revestimento que é de chocolate de leite, a única variante disponível também em tamanho “gigante”.
O Kajszibarack, o Epres, o Mogyorós e o Kókuszos – iguais ao Natúr mas com aroma de alperce, morango, amêndoa e côco, respectivamente.
Recentemente foi lançado o Pont2, que é não mais do que uma saqueta com dois bombons de chocolate negro recheado com requeijão e creme de amêndoa no centro.
Existem outras marcas, por exemplo a Nestlé, que lançaram as suas idênticas barras de requeijão no mercado, mas... A Pöttyös az igazi! (O pintas é o verdadeiro!).
A informação apresentada não tem objectivos comerciais e corresponde a uma análise superficial efectuada directamente num hipermercado de Budapest, contrastada com uma fundamental descrição pormenorizada de uma apreciadora incontestável, conhecedora portanto da essência, sabor e textura do produto na sua versão base e variantes disponíveis.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

As luvas de László

Tornou-se Eusébio da Silva Ferreira famoso por artes mais físicas do que espirituais, apenas e o bastante para ser presença imóvel em metal nobre, castanho por inteiro, roupa e botas indistintamente, junto ao estádio do, digamos, glorioso.
Por essas bandas, as de Benfica, era comum ver passar o break de Carlos da Maia, amigo de infância do Silveira Eusébiozinho, em direcção à Porcalhota com um aspecto resplandecente e olhar aceso sob veston de xadrezinho castanho em almofada burguesa. O mesmo Carlos, de barba muito fina, castanha-escura, rente na face a aguçada no queixo, conheceu Maria Eduarda em Lisboa e rapidamente se apaixonou pelo passo soberano de deusa, mulher maravilhosamente bem-feita e de cabelos espessos ondeando ligeiramente sobre a testa, em dois tons, castanho-claro e castanho-escuro.
A fazer fé na tradução, pelo mesmo Eça de Queirós, do livro King Solomon's Mines de Henry Haggard, o Capitão John tinha um fato completo de cheviote castanho, com chapéu da mesma fazenda, polainas irrepreensíveis, luvas amarelas de pele de cão, a face escanhoada, monóculo no olho, os dentes postiços rebrilhando em glória, enquanto por África partcipava em caçada de elefante, localmente chamado Uncungunlovo.
Igualmente probiscídeo, mas de origem indiana, Solimão não se livrou de ser conduzido em estafante viagem por Fritz, o cornaca patrício igualmente naturalizado austríaco no exacto e espontâneo momento em que Maximilian II decidiu o baptismo. O paquiderme castanho havia sido ofertado pelo Rei D. João III e Catarina, prima do Arquiduque mas espôsa do primeiro.
Os olhos deste rei português eram azuis ou verdes tal como os tinha seu pai, e não castanhos como os da feiosa sua mãe Maria de Aragón y Castilla, filha dos Reyes Católicos de Espanha.
E porque todos os nove filhos legítimos de João, os concebidos por Catarina, morreram antes de o sucederem no trono, foi seu neto D. Sebastião, orfão, tornado rei aos três anos de idade e por tal conhecido como “o desejado”. Castanhas são as roupagens e adornos da armadura do Rei D. Sebastião, segundo a pintura a óleo exposta no Museu de Arte antiga, na Rua das janelas verdes, palácio que pertenceu aos Condes de Alvor, e posteriormente foi adquirido pelo Marquês de Pombal, também este Sebastião.
Ora Sebastião José de Carvalho e Melo, após ter desempenhado funções de embaixador em Viena, servindo o Rei D. João V, foi empossado Ministro dos Negócios Estrangeiros pelo recém entronado Rei D. José I, sendo já Primeiro-Ministro no ano em que o dia de Todos os Santos foi trágico para o Reino de Portugal e principalmente para a Lisboa. A reconstrução patrimonial foi portanto uma responsabilidade sua, razão pela qual alguns lugares e objectos são conhecidos pelo seu próprio nome, como é o caso de um certo tipo de azulejo. O Azulejo Pombalino é caracterizado principalmente pela policromia (o azulejo deixa de ser somente azul e passa a exibir naturalmente outros tons, principalmente o amarelo, o verde e o castanho) e também por padrões de repetição simples de modo a revestir intensamente fachadas e decorar espaços públicos de menor nobreza.
Por outro lado e ainda a propósito, no dia onde a memória de mártires é tipicamente celebrada com castanhas assadas, antes mesmo do Magusto, é também tradicional as crianças saírem à rua em pequenos grupos para pedirem o “Pão por Deus” às portas enquanto proferem versos populares ou simplesmente repetem palavras amáveis. Em troca recebem rebuçados, biscoitos, bolachas, broas, bolos, nozes, avelâs, amêndoas e castanhas, embora seja provável preferirem chocolates, que embora sejam feitos com manteigas e leite, são castanhos por causa do cacau.
Para além disto tudo, ainda há as luvas de László, que por lógicas diversas do acaso, definitivamente não são pretas!
Esclarecimento: Artigo dedicado por James Stuart a “quem sabe alguma coisa acerca de algo” e por tal capaz de entender o que lê para além das simples palavras. Para os restantes, há as fotografias.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Cravo

Em português chama-se cravo mas é harpsichord em inglês, clavecin em francês, clavicembalo ou somente cembalo em italiano, igualmente em alemão e csembaló em húngaro.

Descende provavelmente do saltério, que por sua vez é parecido com uma harpa.

Se por um lado, na forma e até modo de utilizar o cravo apresenta fortes semelhanças com o piano, este é menor e pode ter desde um a três manuais (teclados).

É verdade que o piano (inventado no início do séc. XVIII em Itália) praticamente substituiu o cravo em termos de popularidade, principalmente a partir da segunda metade do séc. XVIII até aos dias de hoje, tendo o cravo sido muito utilizado desde o início do séc. XVI (primariamente fabricado quase em exclusivo por artesãos italianos e posteriormente também por flamengos, franceses e outros).

Mas se na forma, conforme referido, existem semelhanças entre os dois instrumentos, será errado considerar que um é percursor do outro porque o cravo funciona por tangência (ou beliscamento) nas cordas enquanto o piano emite sons por percussão nas mesmas. Ou seja, no cravo, ao premir as teclas, os plectros (palhetas) puxam as cordas desde os saltadores de um modo similar ao movimento de unhas a puxar as cordas numa guitarra acústica.

Apesar da grande capacidade de registração conseguida pelo cravo (mais do que uma corda para cada nota com saltadores separados de modo a serem tocadas por plectros em locais diferentes), a sua sonoridade era desfavorável para obtenção de timbres fortes e fracos (crescendos e diminuendos) ao contrário do piano.

Todos os grandes compositores barrocos tais como Scarlatti, Seixas, Händel, Bach e outros, bem como Mozart e Beethoven (estes já posteriores ao barroco) escreveram e utilizaram amplamente o cravo.

Merece a pena ouvir uma composição para cravo, com o concerto em Lá Maior de Carlos Seixas (José António Carlos de Seixas), compositor e cravista português do séc. XVIII, mestre da Capela Real e organista da Sé Pratiarcal de Lisboa.

(É conveniente interromper primeiro a Rapsódia Húngara nº 2 de Liszt, na barra lateral, de modo a evitar sobreposição)

Cravo (vídeo)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Calhaus

- Queres parar de me bater?
- Não me tivesses andado a atirar calhaus.
- Não eram calhaus, eram pedrinhas.
- Eram calhaus.
- Pedrinhas.
- Calhaus, podiam aleijar.
- Pedrinhas que quase não se sentem.
- Incomodam.
- Não matam.
- Mas moem.
- Devolve-me o que é meu e eu paro de atirar.
- Não tenho nada teu, isto é meu.
- É meu.
- É meu, meu, meu.
- É meu vezes infinitos.
- Se é teu anda cá buscar.
- Não posso, tu bates-me.
- Só porque tu provocas.
- Só provoco porque quero o que é meu.
- Já tens o que é teu.
- Não tenho não.
- Tens sim, já devolvi.
- Só uma parte.
- É a tua parte.
- Falta uma parte.
- Não, não falta.
- Falta, falta.
- Não falta, não falta e não falta.
- Então para que é que fizeste um muro à volta?
- Porque tu queres tirar-me o que é meu.
- Porque é meu.
- Mas tu já tens o que é teu, deixa-me em paz.
- Não enquanto tu não te fores embora ou pelo menos me devolveres o que é meu.
- E eu não vou e não saímos da cepa torta.
- E eu continuo a atirar pedrinhas.
- São calhaus e às vezes acertam noutras pessoas.
- Isso vindo de quem me dá cargas de porrada que deixam marcas até em quem está a ver.
- Só porque tu não respeitas as tréguas e me atiras calhaus.
- Só porque tu me oprimes. E não são calhaus são pedrinhas.
- São calhaus, aleijam.
- Tu aleijas mais.
- Só porque tu atiras os calhaus.
- Pedrinhas...
...continua (infelizmente).
“Calhaus” foi cedido gentilmente por Pnet Homem e pelo próprio autor, João Moreira de Sá. A imagem apresentada não pertence ao editor do Szerinting, tampouco ao autor do artigo.

O outro alguém

Ele era extremamente empenhado em elaborar estudos e estimativas económicas específicas, estimado elemento em equipa e excelente exemplo em espírito empresarial, especialmente enquadrado entre empresas exclusivamente estabelecidas em encontros esporádicos. Europeu educado, erudita estagiário e etnógrafo evolutivo, era experiente especialista em estudos etimológicos e estrangeirismos, entrusado entre escritores, embaixadores, estudantes, etc.
Enquanto estivessem estabelecidas etapas exageradas, eventuais entraves estatísticos e edificabilidades erradas, encontravam-se então encerradas expectativas, esperanças e ensejos em expressões estritamente empíricas e exclusivamente estimulantes.
Preferia primariamente produzir prosa principalmente pofissional, provocando pensamentos perniciosamente populares, proferindo previsões porventura providenciadas por promissora proactividade psicanalítica potencialmente perigosa para permanentes possidónios, pretensiosos poltrões, perfeitos pusilânimes.
Pretendendo prestígio, ponderou penhorar prioridades, precisamente para patrocinar publicação progressiva, porém preciosa, projectada particularmente para penetrar preferentemente pessoas prepararadas para perceberem pressupostos pensamentos profundos, premeditadamente problemáticos para provincianos, parôlos por percalço, parvos por prévia parecença paterna, provavelmente paridos por palermas.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Hétvége Budapesten

Luísa subia e descia a mesma calçada de uma Lisboa que a tornava mais e mais cansada, mas não como a da poesia no Teatro do Mundo, simplesmente esgotada e farta da redundante mediocridade de um povo que a deixou construir. A sua vida, por assim dizer, tornou-se numa rotina de hábitos e missões, costumes e obrigações, de uma tolerância demasiado impávida ou simples falta de coragem, chamemos comodismo.
Numa manhã débil de Janeiro, daquelas sem alvorada ou somente disfarçada por uma chuva que desaba depois num repentino mas óbvio momento, saltou Luísa do quentinho com maior vontade de regular os ponteiros do relógio de modo a iludir o tempo ou as distâncias que o medem, mas não, seguiu nos afazeres da rotina, ensinou afectivamente a quem tinha de ensinar sobre aquilo que lhe disseram ter que ser a verdade factual ou por vezes suposta e nada de interessante aconteceu, nada apareceu como novo ou sem aviso do tipo, digamos, prévio. As horas passaram com a mesma indiferença que a ausência tem pela espera e fez-se noite.
Na companhia do seu outro eu, aquele que se compromete a existir em caixas de correio electrónicas e afins, deixa-se anestesiar por pensamentos e leituras, caracterizando por palavras as análises que faz a formas geométricas e movimentos contínuos por simples prazer ou simpatia, descobre a curiosidade de sentir Budapeste.
O taxi que apanhou Luísa no Terminal 2B do aeroporto Ferihegy era preto e igual a todos os que pertencem à única companhia autorizada a transportar passageiros desde essa praça. Durante todo o percurso somente o silêncio total e absoluto fez memória porque tanto o motorista como a cliente não verbalizavam um idioma comum, o destino havia sido indicado por escrito.
A língua Magyar é de facto muito única, a quantidade enorme de vogais torna-a fácil de ler embora fossem poucas as palavras que Luísa entendia. Perto do hotel existe uma Gyógyszertár, pela montra percebeu tratar-se de uma farmácia. Numa esquina observou estacionado um carro da Rendőrség, pela pintura percebeu ser da polícia.
O hotel New York Palace estava completo, apenas sorte foi ter sido destinado a Luísa um quarto com janela na fachada frontal, virada para a Nagy Körút. A relação entre o edifício e a cidade de Nova Iorque é nenhuma, pois nem o arquitecto era americano, tampouco essa cidade tem edifícios tão belos. O tempo voava entre check-outs e chek-ins e às quatro da tarde, após um banho quente e aromático rematado com toalha bordada e um Pöttyös óriás, a noite já estava instalada numa capital que se comportava igualmente, como se dia se tratasse.
Três dias, duas noites era o programa, embora a verdade significasse duas metades “queimadas” entre a chegada e a partida que as agências não relevam nem revelam mas de facto só pode ser um óbvio como óbvias são as contingências das distâncias e trâmites legais ou acordados.
O porteiro abriu a porta e responde “szívesen” ao “thank you” que posteriormente passou a “köszönöm”, Luísa entrou no primeiro eléctrico que parou, um número 4, desconhecendo o sistema de tarifas e controlo, simplesmente ao acaso e por curiosidade primária subiu, ajustou a saia púrpura e naturalmente sentou-se. O eléctrico manteve-se estático e de portas abertas durante uns cinco minutos ou mais até uma voz de altifalante provocar um êxodo total. Os mesmos olhares, tão sisudos e imóveis como o próprio eléctrico estavam agora na paragem, alguns fixados em Luísa que se mantinha sentada, mas só, dentro da carruagem. “Algo se passou, alguma coisa importante disseram ao microfone porque todos estão lá fora... em Roma sê romano, logo em Budapeste faz como vires fazer”, terá pensado e "o mais prudente seja abandonar também". Neste entretanto de indecisão, um leve toque no vidro e um sorriso do lado de fora... “The tram is stopped because of... some kind of problem… perhaps an accident in the track”. O jovem continuou prestável e cortês, auxiliou Luísa a descer por uma mão quente já sem luva. Acertaram no idioma, que a outra opção seria o alemão, menos prático para ela mas indiferente para ele, num diálogo suficientemente extenso para as devidas apresentações terminarem num convite, Kávé és sütemény numa cukrászda.
László expressava-se num inglês fluído e com um sotaque mínimo, apenas incapaz de pronunciar correctamente o W, que sempre dizia V. Nos primeiros momentos a coisa era irritante principalmente quando o “vére” aparecia no lugar de “where”, mas depois passou a ser engraçado e até motivo de graçolas, onde Luísa repetia o seu sotaque propositadamente sem que László desse conta.
Na outra mão ainda coberta por luva, o jovem transportava um dvd, Anything Goes, o musical. Obviamente Luísa aceitou o convite. László arqueou o cotovêlo e iniciou a caminhada. Luísa enrubesceu mas entregou a mão no seu braço e seguiram juntos.
I’ve got you under my skin era a composição de Cole Porter ditada pelo piano do Lukács à chegada, mas László fez questão de segredar ao ouvido do músico e de seguida surge Bossa-Nova numa melodia de António Carlos Jobim, Luíza.
O vislumbre da paixão enchia um coração devolvido de lembrança ou simplesmente uma nova esperança fez seus olhos brilhar e a pulsação saltitar... por um amador, aprendiz do seu amor... e desejou tanto um beijo.
Juntos visitaram o Szépművészeti Múzeum, um museu riquíssimo onde se encontram expostas peças de pintores e escultores de toda a Europa, pouca quantidade é certo, mas mais do que em todos os museus de Portugal, juntos. A exibição extraordinária de El Greco foi uma boa oportunidade também e por fim a iluminação da Praça dos Heróis emprestava magia ou poderes acrescidos ao Arcanjo Gabriel na sua tarefa de proteger com mais empenho os Magyarok, desde o topo da coluna ao centro.
László seduzia pela oportunidade e destreza de seus comentários e movimentos, um espécime masculino raro. História, literatura, poesia, pintura, música, cinema... eram motivo de conversa e domínio, diálogo nunca interrompido sequer para perceberem que as suas mãos já agarravam como se eternamente fossem par.
Caminharam até à Szent István basilika, de facto enorme e bela, mas não a igreja mais bela que alguma vez Luísa vira, faltavam-lhe os azulejos. Lá dentro sentiu-se novamente perto de Deus, aproveitou para pedir protecção e perdão por pecados, para já os do pensamento ou desejo.
O perfume doce na brisa que o Danúbio transportava excitava os sentidos e a imaginação para palavras mais belas, percorreram a margem de Pest até ao Nemzeti Színház, o teatro nacional. O frio e a estatuária do jardim contíguo resultaram em abraço, terno e macio. O jantar aconteceu no barco Spoon, com vista para o palácio real e a manhã apareceu com o encerramento da discoteca Buddha Beach, assim grande como o Lux, mas num armazem parecido com os das docas de Lisboa. Luísa regressou ao hotel onde descansou até ser noite novamente, o seu cansaço era diferente agora, parcialmente físico mas fortemente emocional.
Junto ao aparador, um ramo de rosas frescas devolveu o sorriso a Luísa e logo uma expressão facial indefinida de curiosidade estupefacta, um cartão dizia Szeretlek e um número de telefone.
Luísa não voltou a ver László mas sentiu Budapest na sua essência, romântica, tal qual imaginava. A sua história não chegou a ser de amor porque simplesmente preferiu desconhecer um final arrebatador.
László procurou por Luísa, três vezes em Lisboa e outros milhares no mundo virtual, mas nada de Luísa... fosse outro o seu verdadeiro nome.
Hétvége Budapesten (Fim de semana em Budapeste) é dedicado à autora do Blogue “A dobra do grito”.

Szentkirályi

Na Hungria todas as garrafas de água que apresentem uma tampa e rótulo azul é porque o conteúdo está gaseificado. Por outro lado, a ausência de gás (szénsavmentes) é reconhecida pela côr rosa.
As garrafas de água Szentkirályi (Santo Real) utilizam a imagem fotográfica de um jogador de futebol português em conjunto com uma assinatura legível, para os que não reconhecendo a face, possam pelo menos reconhecer o seu nome.
O futebolista não acrescenta maior valia ao produto, ou seja não há qualquer slogan associado, sequer conselho apropriado ou uma palavra de apreço pela eventual qualidade ou hipotéticas vantagens da água, mas simplesmente o seu retrato, a assinatura e um descritivo da profissão.
Desapareceu aquele tipo de publicidade impressa do antigamente, tal como o das famosas embalagens verdes, onde “com farinha 33 valerás por 3”, “leve, aromática, saborosa, energética, digestiva, fortificante”, “alimento ideal para toda a família”, “para todas as idades”, “alimento saudável composto só com produtos naturais”, “alimento natural” “ideal para jovens, desportistas e idosos” e etc, etc, mais os brindes!

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Kisvasút Kiállítás

Quem por desconhecimento pensar que os combóios de miniatura são brinquedo de crianças, desengane-se desde já porque eram tantos ou mais os adultos interessados na Kisvasút kiállítás, exposição temporária de pequenos combóios na Budafok-Tétény Művelődési ház. Ademais, a tecnologia utilizada e o preço destes brinquedos não se compatibiliza com os mais pequenos, embora seja interessante encontrar aqui um meio de juntar dois seres, adulto e criança no mesmo interesse, onde um monta e coordena os meios tecnológicos e o outro realmente brinca e se diverte sob supervisão do primeiro. Fica o apontamento para as mães ou futuras mães, idéia de uma boa prenda conjunta para marido e filhos.
A maior parte das maquetes expostas eram de escala N (1:160), que obriga a trabalhos de maior perícia manual e cuidados específicos de manutenção (imagine-se os problemas da escala Z, 1:220).
Porém a escala HO (1:87), onde tudo é um pouco maior, é aquela que permite a tal utilização conjunta a preço talvez mais conveniente e com bastante oferta em termos de marcas fabricantes, principalmente quando apresentada em conjuntos promocionais (caixas com pistas completas, máquinas, vagões, comandos, etc.).
É quase verdade que a mesma escala permite compatibilização no engate de vagões de marcas diferentes e a utilização de carris de fabricantes diferentes das composições. As pequenas diferenças, resultam de um proteccionismo de marca, mas não são assim tão impeditivas.
O melhor mesmo é fazer pistas com elementos da mesma marca, principalmente de origem austríaca ou alemã, onde a perfeição e o detalhe reinam de um modo muito sério.
Para os mais interessados neste tema, ou simplesmente para aqueles que guardam memórias de algumas tardes de infância bem passadas com a ferrovia de miniatura, o mundo da internet abre a possibilidade de reencontrar (para venda como usado ou coleccionismo) artigos de fabricantes que já desapareceram há muito, como é o caso da francesa Jouef, melhor em material circulante do que em carris.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Uránia Nemzeti Filmszínház

E quando a ida ao cinema não acontece por causa do filme? É possível e normal, mas não em qualquer parte. Encontrar alternativas aos cinemas-pocilga (onde a sorvência estridente de refrigerantes se confunde ou alterna com ruminância, contando com um sempre presente cheiro nauseabundo a milho transfigurado no ar) é uma questão de atitude, de resistência ao medíocre ou simples não resignação.
Entrar no Uránia Nemzeti Filmszínház (Cine-teatro Nacional Uránia) pode portanto significar muito mais do que ir ao cinema, é um espaço onde a beleza não se distingue do luxo e o propósito popular se dilui na aparição museológica. Os átrios diversos do interior, sejam de convívio, refeição, ou até escadarias e guarda-roupa são extremamente belos, dignos de apreciar atentamente.
Segundo informação prestada pelo Oktatási és Kulturális Minisztérium, o edifício Uránia foi construído na última década do séc. XIX segundo projecto de Henrik Schmal, encomendado por Kálmán Rimanócsy.
O estilo arquitectónico, muito peculiar e único na cidade, incorpora o gótico-veneziano e o árabe-mouro. Apesar de ter sido desenhado com o propósito de exibir música e dança, foi inaugurado como cabaret e alugado pouco tempo depois à Academia de Ciências para conferências, apresentações científicas e educacionais.
Em 1917 o Uránia foi reconstruído de um incêndio e adaptado para a projecção cinematográfica, nos anos 30 remodelado e tantas mais vezes como as de ter cambiado de dono, até ao ano de 2002 quando o Estado decidiu reconstruír rigorosamente o imóvel, agora classificado e protegido, premiado e catalogado, esplêndido e pouco lucrativo (a ter em conta que o preço dos bilhetes no Uránia é inferior à maioria das salas de cinema de Budapest).
Arte nova, gótico e estilo mouro nas formas e decoração escondem moderna tecnologia na qualidade de som, segurança, instrumentos e aparelhos mecânicos de palco (actualmente o Uránia exibe paralelamente cinema e teatro) iluminação, sanitários, etc.
A sala principal e dois pequenos estúdios oferecem cerca de 700 lugares para as estreias de todos os filmes de produção nacional e alguns estrangeiros, bem como festivais de cinema e mostras independentes.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Omszki tó

A temperatura insistente em negativa promove actividades muito positivas, ocasionais ou espontâneas, desportos e exercício físico ao ar livre, locais onde vizinhos, colegas ou amigos se reencontram.
Hóquei, patinagem, corridas de trenó, brincadeiras simples ou complexas, passeios a pé e uma satisfatória novidade para os mais novos, os iniciados da vida.
Durante o Verão o pequeno lago Omszki (Omszki tó) é praia de nudistas e tem também um sistema mecanizado para a prática do esqui aquático. Durante as outras estações “diz” que é bom para a pesca. Sim, um lago com um diâmetro inferior a 1000 metros e que confina com um hipermercado e um nó de auto-estrada, tem essa faculdade de ser útil em diferentes momentos.
Ali perto fica o rio Danúbio (Duna folyó) cuja lentidão é ainda a de um Inverno a meio, transportando à superfície blocos de gelo da sua própria alma.
Ao largo, na água que delimita a fronteira entre o município de Budakalasz e a ilha de Luppa (Luppa sziget), os patos seguem novamente resistentes e imunes ao enregelamento dos membros inferiores, principalmente quando decidem afastar-se de curiosos que nem sempre aparecem por bem, crêem.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Liszt Ferenc

Junto à praça da Catedral de S. Pedro, na cidade de Pécs, existe uma curiosa estátua em bronze. É o compositor Liszt Ferenc, o génio virtuoso do piano debruçado numa varanda.
Embora tenha sido o italiano Antonio Salieri, Kapellmeister da Corte Imperial em Viena, o mestre de Liszt (também mestre de Beethoven e Schubert) o momento mais marcante (o que influenciou a carreira do músico) foi a singular ocasião em que assistiu ao extraordinário virtuosismo de Paganini no manejo do violino, desejou ser igual na técnica pianística.
Liszt dedicou-se ao objectivo de dominar o objecto sob todas as suas formas e acabou compondo obras com tal complexidade e velocidade que somente ele era capaz de tocar. Para além da insistência na maior utilização da mão esquerda ao invés da direita, podem ser contados no meio de cruzamentos e alternância das mãos, 38 movimentos em 3 segundos ou grandes saltos de intervalo e um enriquecimento sonoro excepcional através da escrita em oitavas.
Posteriormente outros músicos revelaram-se mestres do piano, compondo também obras que somente eles seriam capazes de tocar. Sergei Rachmaninoff é disso um exemplo (basta ouvir os Concertos nº 2 e nº3 para piano e orquestra ou a Rapsódia sobre um tema de Paganini para que se entenda o génio), mas porque o tamanho das suas mãos era extraordinário (um palmo aberto permitia cobrir um intervalo de uma 13ª, correspondente a uns 30 cm de distância) típicos do síndroma de Marfan, doença hereditária caracterizada por dedos magros e compridos, elevada estatura e uma forma facial específica. Foi também uma doença, o síndroma de Ehlers-Danlos (caracterizada por uma anormal flexibilidade nas articulações) que forneceu provavelmente as capacidades extraordinárias ao próprio Paganini.
Liszt Ferenc (também conhecido pelo nome germânico Franz Liszt) nasceu em Doborján, no Reino da Hungria (hoje chama-se Raiding e pertence Burgenland, Áustria) embora a família paterna fosse de origem alemã e materna de origem austríaca. Durante toda a sua vida utilizou documentos e passaporte húngaros mesmo sem nunca ter aprendido a língua.
Ainda hoje Liszt é considerado um dos maiores pianistas de todos os tempos, contudo a sua maior grandeza (por ventura menos conhecida) reside no modo como encarou a música, não aspirou à riqueza através dela mas contam-se inúmeras as ocasiões em que trabalhou por caridade e ofereceu os seus constantes rendimentos para obras sociais e ordens religiosas.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Ano novo

De tantas coisas que nunca mudam, ocasiões garantidas, são os concertos no Musikverein de Viena com as mais representativas composições de Strauss, novamente transmitido pelas televisões, com a orquestra filarmónica dirigida por Daniel Barenboim. O maestro proferiu o seu desejo em inglês (de modo a que alguém mais o ouvisse e não somente o público presente que naturalmente preferiria o alemão) numa frase curta mas indicativa de tanto (“peace to the world and understanding for the middle-east”), que as prioridades de 2009 são para muitos as mesmas dos anos anteriores, a miséria de outras partes é mal menor, simplesmente irrelevante.
Independentemente e à parte desse pormenor infeliz, foram representadas outras obras tais como a “Sinfonia do Adeus” de Haydn (novidade para alguns certamente, dado o espanto e emoção verificado na plateia, completado com um mais eufórico e entusiasmado reconhecimento final) bastante apropriada e de elevada complexidade técnica, principalmente quando a menor quantidade de instrumentos apura a capacidade dos ouvintes para a avaliação da qualidade dos músicos.
O 2009 começou em Budapest do mesmo modo como prometido, a nevar suavemente enquanto foguetes e artifícios estalavam no ar e o Presidente da República repetia o seu discurso do ano anterior com palavras diversas.