sábado, 15 de novembro de 2008

A liberdade de expressão do séc. XVII

Miguel de Cervantes Saavedra foi um novelista, poeta e dramaturgo espanhol, nascido a 29 Setembro de 1547 em Alcalá de Henares e falecido a 22 de Abril de 1616 em Madrid.
Cervantes é considerado como a figura máxima da literatura espanhola e uma das figuras maiores da literatura universal, principalmente devido à sua obra Don Quijote de la Mancha, considerada ser a primeira novela moderna.
Mas para além da novela referida, o escritor produziu uma obra literária muito vasta e diversa que inclui peças de teatro, poesia, romance e muitas outras novelas.
Entre a publicação da primeira e da segunda parte da novela Don Quijote de la Mancha (em 1605 foi publicado El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha e somente em 1615 El ingenioso caballero Don Quijote de la Mancha) foi editada, em 1613 a obra Novelas ejemplares de honestísimo entretenimiento.
Novelas ejemplares é um conjunto de belas narrativas com propósitos morais, sociais e estéticos, onde o autor explora distintas fórmulas e mostra-se épico, lírico, trágico e cómico.
A maior narração das Novelas ejemplares, é La Gitanilla. Diz assim o primeiro parágrafo:
"Parece que los gitanos y gitanas solamente nacieron en el mundo para ser ladrones: nacen de padres ladrones, críanse con ladrones, estudian para ladrones y, finalmente, salen con ser ladrones corrientes y molientes a todo ruedo, y las ganas del hurtar y el hurtar son en ellos como accidentes inseparables, que no se quitan sino con la muerte."
Miguel de Cervantes tinha no início do séc. XVII uma liberdade de expressão distinta da que hoje existe. Não era maior e tampouco menor, era simplesmente diferente.
A imagem apresentada é um conjunto de esculturas com motivos baseados nas obras de Cervantes, pertencentes ao monumento edificado na Plaza de España em Madrid, trabalhos de Coullaut-Valera.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Fado do estudante

O Fado do Estudante é cantado em A Canção de Lisboa de Cottineli Telmo, primeiro filme sonoro português, realizado em 1933:
Que negra sina ver-me assim

Que sorte e vil degradante

Ai que saudades eu sinto em mim

Do meu viver de estudante

Nesse fugaz tempo de amor

Que de um rapaz é o melhor

Era um audaz conquistador das raparigas

De capa ao ar cabeça ao léu

Sem me ralar vivia eu

A vadiar e tudo o mais eram cantigas

Nenhuma delas me prendeu

Deixá-las eu era canja

Até ao dia que apareceu

Essa traidora de franja

Sempre a tinir sem um tostão

Batina a abrir por um rasgão

Botas a rir num bengalão e ar descarado

A malandrar com outros tais

E a dançar para os arraiais

Para namorar beber folgar cantar o fado

Recordo agora com saudade

Os calhamaços que eu lia

Os professores da faculdade

E a mesa da anatomia

Invoco em mim recordações

Que não têm fim dessas lições

Frente ao jardim do velho Campo de Santana

Aulas que eu dava se eu estudasse

Onde ainda estava nessa classe

A que eu faltava sete dias por semana

O fado é toda a minha fé

Embala encanta e inebria

Dá gosto à gente ouvi-lo até

Na radio-telefonia

Quando é cantado e a rigor

Bem afinado e com fulgor

É belo o fado ninguém há que lhe resista

É a canção mais popular toda a emoção faz-nos vibrar

Eis a razão de eu ser doutor e ser fadista
A cena do filme A canção de Lisboa onde Vasco Santana canta o Fado do Estudante está disponível de seguida em vídeo. Antes de activar essa função será oportuno desligar primeiro a música de Chopin no leitor áudio da barra lateral de modo a evitar sobreposição sonora

Fado do Estudante (vídeo)

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Szinyei Merse

Pál Szinyei Merse foi um pintor e político húngaro. Apesar do seu importante contributo como deputado eleito do parlamento, onde destacou a importância do investimento público na modernização e actualização do sistema educativo artístico, Szinyei Merse tornou-se realmente famoso pela pintura impressionista, onde o amor e as planícies da Hungria são temas principais.
No corpo central do palácio real de Budapeste encontramos a Magyar Nemzeti Galéria (Galeria Nacional Húngara), e ali estão expostas algumas das mais belas pinturas de Szinyei Merse.
É difícil de evitar fixar o olhar para a Lilaruhás nő (mulher de vestido lilás) de 1874, não somente pela posição na sala, mas porque a vivacidade da cor predominante é absolutamente inacreditável.
A representação de uma família no campo a merendar (Majális, de 1873) é uma obra bastante popular e apresentada numa perspectiva algo incomum. A sua popularidade deve-se também ao facto de pertencer ao programa do ensino básico, mencionada como importante exemplo do impressionismo.
Mas a beleza do Szerelmespár (par de namorados), uma pintura de 1870 traz-nos uma sensação de paz, mostra-nos que existe uma realidade pura e bela no dominio eterno do amor, superior à paixão irracional.
O céu e a beleza das formas criadas pelas nuvens e movimentadas pelo vento aparece com um contraste realmente raro e até estranho nas obras deste artista, uma mulher expondo a nudez. Apesar dessa excepção, este tipo de representação, onde um motivo da natureza aparece como predominante na tela demonstrando porém a dimensão e importância do ser humano relativamente à mesma, é uma constante.
Os campos de papoilas são um exemplo dessa proximidade, num vermelho tão vivo que oferece à natureza um lugar maior do que o espaço ocupado, uma força e um poder.
Infelizmente esta obra encontra-se exposta num corredor de saída, mal iluminado e junto de portas de serviço e instalações sanitárias, o que é absolutamente lamentável porque impede o visitante de apreciar a uma distância maior do que dois passos de recuo.
Szinyei Merse nasceu a 4 de Julho de 1845 e faleceu a 2 de Fevereiro de 1920. Quatro meses e dois dias após a sua morte, por via das condições do Tratado de Trianon, a sua terra natal (Szinyeújfalu) deixou de ser uma província húngara e passou a fazer parte da Checoslováquia, hoje Eslováquia.
Em 1873 ganhou uma medalha na Exposição Universal de Viena e em 1900 conquistou uma outra medalha na Exposição Universal de Paris.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Sabedoria árabe do séc XVIII

Al-Sayed Haroun Ibn Hussein Al-Makhzoumi foi um médico árabe, nascido no Iémen mas que exerceu a sua profissão em diversas lugares, desde a Arábia até Al Andalus, na península Ibérica. A especialidade não aparece revelada nos seus escritos mas o teor dos mesmos indica algo a ver com urologia ou ginecologia, provavelmente dava consultas sobre sexologia e planeamento familiar. Nasceu no séc. XVII mas escreveu com muita objectividade e clareza sobre as artes da cópula, descreveu as diversas formas e aspectos possíveis de orgãos sexuais, estudou a relação directa existente entre as diferentes características físicas de centenas de homens e mulheres e os diferentes tipos de orgasmo experimentados e por fim deixou registadas as suas observações de sabedoria árabe à data de 1725, relativamente à natureza sexual do homem e da mulher:
“A mulher é irresistivelmente atraída pelo homem forte, corajoso e viril, pois nos seus braços encontra o seu abrigo de gratificação e de segurança física.
A mulher não necessita, nem tem compaixão pelo homem fraco, e olha para ele com aversão e desprezo, pois nele vê reflectida a sua própria fragilidade. Se o destino a coloca junto de um homem fraco, sente-se muito perturbada, já que isso significa insegurança e possível perigo para ela e para os seus filhos. Dele não pode obter conforto, e segurança, nem para o corpo, nem para o espírito. Torna-se fria e apática e pode lançar-lhe todo o tipo de censuras, para castigá-lo pela fraqueza que a torna infeliz.
A mulher satisfeita é uma criatura deliciosamente doce. É um deleite para os olhos, o corpo e o espírito do homem, que terá através dela um vislumbre do Paraíso. A mulher insatisfeita é uma criatura terrível, pois na sua insatisfação ela perde tudo, e a sua vida torna-se tão desolada quanto o grande Sahara, e o seu espírito tão negro quanto a noite eterna. A arma suprema do homem é a sua mente; a arma suprema da mulher é o seu corpo.
Alá disse acerca das mulheres: "É grande a astúcia delas". Há nisso muita sabedoria e significado. As mulheres são astutas porque são fracas e dependentes, visto que a astúcia é basicamente um traço dos fracos. É também um traço do homem fraco. Se a mulher for protegida e amada como deve ser, não precisará de ser astuta, mas será doce como uma criança.
As mulheres são como as crianças: são o que delas se fizer. Mime-as, e colherá tormentos. Trate-as mal, e colherá a ira de Alá. Dê-lhes o seu amor e a sua atenção, e desabrocharão como lindas flores.
As mulheres são na sua essência, criaturas de prazeres sensuais. Para elas, nada mais importa; satisfaça os seus desejos e gratifique os seus corpos e elas fecharão os olhos a todas as suas transgressões e se tornarão nas suas alegres e bem dispostas escravas.
Quando uma mulher deseja um homem e rejeita todos os demais, diz-se que ela está apaixonada por ele. Ela não consegue ter prazer com outros.
Quando um homem está apaixonado por uma mulher, tern com ela o maior prazer, mas pode ter prazer com outras.
Há homens que amam certas mulheres desesperadamente, à exclusão de todas as demais, e são fiéis a elas. Isso não é normal, e tais homens são carentes de masculinidade.
A mulher gosta de estar sempre com o homem que ama e de passar todo o seu tempo com ele, em todas as circunstâncias e condições.
Para agradar a um homem, louve-lhe a mente. Para agradar a uma mulher, louve-lhe a sua beleza e os seus encantos.
O casamento é tudo para a mulher, preenche quase toda a sua vida e ocupação. O casamento é apenas um episódio na vida do homem.
A existência da mulher em sociedade fora do casamento nao pode ser justificada. Seria como uma árvore inútil que não dá frutos.
A existência do homem em sociedade só é jus­tificada pelas suas realizações intelectuais.
Os homens não devem lutar por causa de mulheres, pois assim serão iguais aos animais.
Uma mulher que espalha propositadamente a discórdia entre os homens usando o seu próprio corpo como isca é maléfica, e deve ser isolada do convívio com os homens.
Demonstre grande compaixão pela adúltera, pois é mais provável que você mesmo a tenha levado a esse caminho pela sua insensibilidade. No entanto, não deverá perdoá-la e aceitá-la de volta na sua cama, mas sim devolvê-la aos seus, ou vendê-la, se for sua escrava.
Nao copule com a mulher que tiver perdido a cabeça. Ela não entenderá verdadeiramente o que lhe fizer, mesmo estando com a vagina húmida. Copular com ela será como montar um animal estúpido.
Pode acontecer que sua vagina prenda o pénis do homem como a da cadela prende o do cão. Em tal situação, faça-a perder a consciência golpeando-lhe a cabeca com um porrete acolchoado, pois somente assim a vagina dela soltará a presa.
Não copule com uma mulher idiota, pois os seus filhos serão como ela.
Não copule com a mulher que chegou à menopausa, pois ela é como uma videira retorcida que já não dá frutos. A sua vagina é seca e irritante, os seus seios estão caídos e enrugados, e o sabor da sua saliva é azedo.
A mais doce das mulheres pode ser transformada numa mulher cínica pelo hornem que a excita mas não a satisfaz. Para domá-la e levá-la de volta à doçura, ele precisa copular com ela e dar-lhe prazer, para que mude imediatamente, como a noite se transforma em dia.
Nunca castigue uma mulher que lhe desobedece afastando-se dela na cópula. Será mais piedoso espancá-la. Tome cuidado, porém, pois há mulheres que têm um prazer intenso e voluptuoso quando são espancadas, e o objectivo do castigo perde o sentido. Ao espancar uma mulher, nunca a golpeie nos seios ou no ventre. É melhor colocá-la sobre os joelhos e espancar-lhe firmemente as nádegas. Assim como as crianças, embora de facto cause dor, o espancamento é apreciado pela mulher, por significar que você se preocupou com ela o bastante para gastar o seu tempo disciplinando-a. Depois, é bastante aconselhável copular com elas, para mostrar que tudo está bem, e convém que seja ainda mais terno e hábil do que é hábito; a sua recompensa será grande na apaixonada reacção da mulher, pois ela também terá como objectivo agraciar-lhe mais do que o normal.”
Em: Fountains of pleasure, tradução de árabe para inglês efectuada por Hatem El-Khalidi (não tendo sido editado na língua original).
Desenhos de Mihály Von Zichy, pintor ilustrador húngaro do séc. XIX.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Alaska

O Alaska é desde 1959, por decisão do Congress e por declaração de Eisenhower, o 49º estado dos Estados Unidos da América. Com 1.717.854 km2, é o maior em área embora tenha a menor densidade populacional (relação aproximada de 2,5 km2 por pessoa, tendo em conta os cerca de 680 mil habitantes). A maior parte dessa população vive na região litoral sul do estado, onde o clima é menos rigoroso.
Tal como o Hawaii, o Alaska não faz fronteira com os restantes 48 estados continentais. A leste faz fronteira com as províncias Yukon e British Columbia do Canadá e a ocidente com a Rússia através do Estreito de Bering. A norte confina com o Oceano Ártico e a sul com o Mar de Bering.
O Alaska foi comprado ao Império Russo em 1867 por 7,2 milhões de dólares após breve negociação entre o Embaixador Edouard Stoeckl e o Secretário de Estado William Henry Seward.
O Czar Aleksandr II tomou a decisão de alienar o território por duas razões fundamentais: O Império Russo precisava recuperar financeiramente após o esforço na Guerra da Criméia e por outro lado a fronteira com o Canadá era na verdade uma fronteira com o Império Britânico, de quem se esperava conflito.
O Presidente Andrew Johnson optou pela compra do território por outras razões também relevantes: O povo americano retribuía assim o apoio prestado pelos russos durante a recente Guerra de Secessão (ajudar financeiramente os russos, por consequência seria uma afronta assumida aos britânicos) e por outro lado a perspectiva de revender o produto comprado (eventualmente aos próprios britânicos) posteriormente e por maior preço.
Foi considerado um território pouco interessante pela administração federal até à descoberta de grandes reservas de ouro, já no final do século XIX, que levou a uma corrente migratória excepcional, resultante de uma “corrida” que veio a terminar no início do século XX.
O nome Alaska vem de Alyeska, que significa “grande terra” em aleúte, idioma esquimo-aleutiano, ainda falado no território.
O sentido de propriedade dos Estados Unidos da América sobre a região era exactamente o mesmo que alguns anos antes os europeus tinham sobre os territórios a que chamavam de colónias, isto é, desconsiderando os direitos dos povos que ali habitavam há milhares de anos. Os esquimós foram expropriados e descriminados durante muitos anos (em 1971 foram criadas reservas aborígenes para os nativos indígenas). Somente em 1988 o inglês passou a ser a língua oficial do Alaska.

Desde 1980 que não é cobrado qualquer imposto sobre rendimentos aos habitantes e tampouco existem impostos de valor acrescentado sobre produtos comercializados, porque a receita do orçamento estadual provém do Alaska Permanent Fund, uma poupança formada essencialmente de impostos sobre a extracção de petróleo e de outros minérios, royalties de 25%.

A prosperidade económica do Alaska e o crescimento demográfico extraordinário é precisamente devido à descoberta da maior reserva americana de petróleo, em 1968.

Geográficamente, o Alaska divide-se em quatro regiões: A Cadeia Montanhosa do Pacífico no sul litoral, as Planícies e Planaltos Centrais, as Montanhas Rochosas do norte e as Planícies do Oceano Ártico, no extremo norte.

Na Cadeia Montanhosa do Pacífico existe uma actividade geológica importante (onde se encontram vulcões activos) em contraste com os milhares de glaciares num tipo de solo classificado como Permafrost.

O Permafrost, tal como o nome indica, é o estado de congelação permanente da terra, água e rochas, normalmente coberta por neve. Quando a neve de cobertura derrete, a superfície trasforma-se em lamas ou pântanos lodosos, tendo em conta que o solo permanentemente congelado impede a infiltração e absorção das águas. Para além de factores climáticos adversos (temperaturas do ar muito baixas, por exemplo), esta é uma das razões que impedem o estabelecimento de edificações e construções humanas definitivas na maior parte do território.

O Permafrost é um solo congelado há milhares de anos.

O clima do Alaska é caracterizado por Invernos longos e frios com noites também longas e por Verões amenos e curtos, com dias longos. O norte tem um clima Polar com temperaturas médias a oscilar entre os -24ºC no Inverno e os 8ºC no Verão, apesar de mínimas que atingem os -50ºC. O centro e sul é de clima Temperado embora contando sempre com médias negativas nas temperaturas de Inverno.

As imagens apresentadas não são propriedade do autor.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Estereograma (2)

Peixe de esqueleto cartilaginoso que partilha com quimeras e raias a classe dos Chondrichthyes, mas somente com as raias a subclasse dos Elasmobranchii. Pertence portanto à super ordem dos Selachimorpha e habita em todos os oceanos e alguns mares.
Estereograma do tipo “visão livre paralela”, onde se descobre a imagem tridimensional fixando o olhar no infinito.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

O Astrolábio de precisão, por Coutinho e Cabral

Por ocasião do 1º Centenário da Independência do Brasil, entendeu o Governo Português patrocinar uma travessia oceânica no Atlântico Sul, a primeira por meios aéreos. Já no ano anterior, em 1921, havia sido experimentada uma travessia bem sucedida entre Lisboa e Funchal.
Carlos Viegas Gago Coutinho e Artur de Sacadura Freire Cabral eram ambos oficiais da Armada e as suas carreiras observaram percursos comuns ao serviço da Marinha Portuguesa, principalmente nas comissões de serviço em África onde se dedicaram a missões de levantamento geográfico e delimitação cartográfica de fronteiras nas províncias ultramarinas.
Apesar de Coutinho ser o superior hierárquico, este não frequentou o curso de piloto aviador em França tal como fez Cabral, dedicou-se antes a trabalhos diversos de investigação geográfica e histórica bem como ao desenvolvimento e optimização de instrumentos de navegação, de onde se destacou um modelo inovador de Sextante de horizonte artificial (que o inventor baptizou de “astrolábio de precisão”) não sujeito a referências fixas (o invento tem a ver com a resolução técnica do problema de oscilações angulares por instabilidade horizontal do navio ou do avião durante a leitura da altura do astro) e um corrector de rumos.
A colaboração de Cabral na optimização do Sextante de precisão foi fundamental principalmente porque a sua influência tornou oportuna a utilização do modelo inventado para a navegação aérea, quando Coutinho essencialmente estudava a utilização marítima do instrumento, principalmente para as situações de horizonte de mar não visível de dia ou de noite.
Terá sido também Sacadura Cabral que incentivou o seu superior a trocar as missões geodésicas em África pelo assunto da aeronáutica.
O mesmo teve influência no processo de aquisição das aeronaves Fairey III-D de origem inglesa, onde a encomenda de duas unidades na versão corrente e uma unidade de fabricação específica não foi por acaso. Assim, o aparelho com o número de série F400 e a referência MkII Transatlantic, diferenciava dos F401 e F402 na maior envergadura das asas, comprimento e altura, assim área alar, também maior peso e raio de acção (instalados depósitos de combustível suplementares nos flutuadores), embora os motores Rolls-Royce Eagle VIII de 350 Cv. fossem idênticos (obviamente o MkII tornava-se mais lento e consumia mais combustível).
Na tarde de 30 de Março de 1922, o hidroavião Fairey FIII-D MkII, baptizado de Lusitânia, partiu de Lisboa rumo a Las Palmas nas ilhas Canárias e daí seguiu para S. Vicente em Cabo Verde. Os flutuadores deixavam entrar água e o consumo da aeronave era excessivo, pelo que alguns dias foram perdidos no arquipélago para reparações.
Em 13 horas e 21 minutos o Lusitânia efectuou a travessia de cerca de 1700 Km de distância entre o porto da Praia e o arquipélago de S. Pedro e S. Paulo. A amaragem nas águas brasileiras foi desastrosa por causa de condições meteorológicas adversas, a ondulação forte arrancou um dos flutuadores do Lusitânia no dia 18 de Abril.
O Governo Português decidiu enviar o Pátria (um dos outros Fairey III-D) para substituir o Lusitânia, numa empresa que já estava praticamente concluída (a travessia do Atlântico, de maior distância e risco, já tinha sido efectuada) por uma questão de prestígio e de opinião pública atingir-se-ia a capital do Brasil. Mas o motor deste Fairey III-D avariou alguns momentos após a descolagem e resultou em naufrágio, exactamente no mesmo local do anterior.
Como não há duas sem três e porque ainda existia um terceiro hidroavião disponível, foi mesmo este, o Santa Cruz, que terminou a viagem com diversas escalas no litoral do Brasil até à chegada ao Rio de Janeiro, a 17 de Junho de 1922.
Esta operação teve custos altíssimos, não somente pela perda de duas aeronaves bem como pelo dispositivo logístico montado a somar ao inesperado, principalmente o acompanhamento constante do cruzador República da Marinha Portuguesa as viagens dos navios Carvalho Araújo e Bagé (navio mercante) para as entregas dos aparelhos de substituição.
Sacadura Cabral desapareceu no ano de 1924, vítima de um acidente aéreo no Canal da Mancha ao comando de um Fokker, diferente de Gago Coutinho, que se reformou em 1939 e faleceu em 1959 com 90 anos de idade e o título de Almirante.
A representação em guache da autoria de Stuart (José Herculano Stuart Torres de Almeida Carvalhais) corresponde ao naufrágio do segundo Fairey (com o número de matrícula 16, ou seja o Pátria). A embarcação que resgatou os oficiais da Marinha Portuguesa foi o Paris City, proveniente de Cardiff e com destino ao Rio.
Embora os trabalhos artísticos de Stuart fossem essencialmente do tipo humorístico e caricatura, tornou-se um famoso ilustrador de capas de revista e posteriormente colaborador da Revista da Marinha.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Szerinted bolondság

Eventualmente aufere um salário compatível com a experiência, capacidades e habilitações adquiridas. Usufrui de diversas regalias em vigor mas não lhe terá sido confiada uma viatura de serviço porque trabalha por conta de uma empresa que só tem um empregado, é o gerente e accionista único.
A utilização de um automóvel particular no desempenho das suas funções profissionais é coerente porquanto qualquer solução diferente obriga ao pagamento de impostos específicos que nunca compensam a dedução dos gastos em combustíveis e afins, a menos que percorra muitos quilómetros todos os meses.

sábado, 11 de outubro de 2008

Árpád

Apesar de não ser considerado ou classificado como o Legnagyobb (o mais grandioso), Árpád é aquele a quem os húngaros reconhecem o maior protagonismo e importância no estabelecimento da nação magyar (que posteriormente se transformou em reino através de Vajk, membro da sua linhagem dinástica).
Álmos foi o primeiro Nagyfedelem (Grande Príncipe) e Árpád foi o segundo, tendo sido nomeado por eleição (não por sucessão, apesar de ser filho de Álmos) organizada entre os líderes das sete tribos magyar (as tribos Jenő, Kér, Keszi, Kürt-Gyarmat, Megyer, Nyék e Tarján).
Tendo sido Álmos, Előd, Ond, Kond, Tas, Huba e Töhötöm os líderes tribais que decidiram sobre os destinos e fundação da nação magyar, numa perspectiva de tomada de independência política e responsáveis pela iniciativa da conquista territorial a oeste das suas origens (migração da federação), foi Árpád, após a morte de seu pai, que na verdade assumiu a realização estratégica dos desafios propostos, fez a gestão dos conflitos militares inerentes e por fim conquistou a bacia dos Cárpatos no ano 896 para ali estabelecer o seu povo de modo definitivo, criando as condições para a rápida expansão (Honfoglalás) que conduziu posteriormente (em conjunto com os Kabar, as 3 tribos turkic também dissidentes do Império Khazar).
Árpád ganhou o lugar de maior prestígio na história do povo húngaro (tornou-se conhecido como o pai dos húngaros) e iniciou uma dinastia com o seu nome.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Cygnus

Quando não é uma constelação trata-se de um Anserinae, bicho de hábitos aeronáuticos com algumas capacidades anfíbias, nidificador e monogâmico que partilha com gansos e patos o seu lugar na família Anatidae dos Anseriformes. Os cisnes habitam felizes nos grandes lagos da Europa central (também no Balaton) e segundo antiga lenda alemã é até possível que alguns se transformem em belas mulheres durante a noite.
Em 1877 tornou-se público o Лебединое Озеро, o primeiro ballet composto por Piotr Tchaikovsky. O Lago dos Cisnes estreou sem grande sucesso no afamado teatro Bolshoi (o grande) de Moscovo.
Segundo o libretto, a mãe do Príncipe Siegfried oferece um arco e flechas como prenda de aniversário e apela para que eleja no dia seguinte uma esposa entre as convidadas da sua festa. Porém um bando de cisnes brancos passa perto do castelo e desperta a atenção do príncipe que decide caçá-los.
O malévolo Von Rothbart líder do “bando” de disfarçados em aves de rapina foi o feiticeiro responsável pelo efeito especial de transformação da Princesa Odette e suas aias em cisnes (embora durante a noite as raparigas voltem à sua condição humana). Siegfried apercebendo-se do esquema urdido, apaixona-se pela Princesa e jura que desmanchará o feitiço, o que somente é possível desde o momento em que seja comprovado um amor fidedigno.
Ambicioso, Rothbard aparece entretanto na Corte da Raínha disfarçado de cavaleiro nobre e acompanhado por Odile, sua filha também disfarçada. Ingénuamente o Príncipe Siegfried deixa-se encantar por Odile (cisne negro) por acreditar que se trata de Odette e anuncia a sua escolha, deixando em apuro a cisne branca, que na sua condição de “boazinha” acaba por se conformar.
No quarto acto o Príncipe “abre os olhos” e vê-se obrigado a demonstrar a Odette a sua condição incontornável de vítima no embuste, mas pede perdão. O facto de ambos renovarem juras de amor eterno é coisa que desagrada ao feiticeiro que se enfurece e inunda as margens do lago. Este acto de vingança resultou no trágico afogamento de Siegfried e assim tornada impossível a quebra do feitiço sobre as cisnes.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Erdély

É um ondulado constante, sempre igual sem arestas, sempre verde mas não de floresta.
Os Cárpatos são também a Transilvânia, Erdély na língua húngara, um acidente geográfico que resultou desde sempre em natural divisão política e por consequência em diferenciação social. As linhas de fronteira que os homens admitiram coincidir desde sempre com a morfologia do terreno são os limites das grandes planícies da Hungria, onde as ambições de ocupantes e invasores se satisfaziam. Foram afinal os constantes conflitos militares que provocaram a repartição do reino e portanto a separação da Transilvânia, não tanto a dissociação das etnias porque em verdade nunca foram unidas. Se por um lado o Tratado de Trianon definiu uma alienação que desde há muito já estava definida pelas gentes, a decepção do mesmo foi tornar o território numa província do reino romeno.
Apesar de actualmente a religião em preferencia ser a ortodoxa ao invés da católica, os povos da Transilvânia assimilaram a língua romena (latina) sem anular porém o húngaro (fino-úgrico). Ali também se encontram populações de etnia Rom, curiosamente tão antigas nestas paragens como as de origem magyar. O som das suas palavras é internacional e independente de idiomas, bem como o modo vestir, agir e interagir com os demais.
As aldeias e lugares apresentam exactamente a mesma organização urbanística verificada na Hungria, as casas, de forma rectangular, estão implantadas sempre perpendicularmente à estrada que atravessa as povoações (contudo afastadas da mesma) e paralelas entre si.
Junto aos portões das entradas quase todas têm um banco protegido por um telheiro, onde as provincianas mais velhas aproveitam alguma luz e calor do sol enquanto as horas passam de conversa e as movimentações “alienígenas” são monitorizadas.
Demográficamente aquele interior (compreendendo interior tudo o que é afastado dos grandes centros urbanos) não é diferente das estatísticas para o espaço europeu, população envelhecida e ainda bastante dependente da agricultura.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Operation Overlord

A batalha ou invasão de Normandie, a 6 de Junho de 1944 e que se tornou conhecida como o "Dia D" (Day of Defeat), tinha o nome de código Operation Neptune, onde forças americanas, canadenses, britânicas, holandesas, nova zelandesas, australianas, francesas livres, polacas e norueguesas em aliança combateram as forças alemãs comandadas por Gerd Von Rundstedt e Erwin Rommel.
As praias de Colleville-sur-Mer, St. Laurent-sur-Mer e Vierville-sur-Mer (junto à península de Cotentin, toda a costa litoral entre Cherbourg e Le Havre) receberam nomes de código que as transformaram no momento em Juno, Gold, Sword, Omaha e Utah... beach.
Apesar de bastante distribuídas por uma linha de costa extensa, as forças alemãs estavam em desvantagem numérica mas contavam com equipamentos e construções que os protegiam e posicionavam de modo quase impenetrável. As centenas de bunkers construídos em betão armado eram guarnecidos com armamento altamente repelente (por exemplo canhões de 155mm e metralhadoras Mg42) embora estivessem sob constante ataque aéreo e naval.
Os alemães aguardavam pela invasão desde o mês de Abril, altura em que tiveram a oportunidade de interferir nuns ensaios de desembarque efectuados em South Devon (Reino Unido) com o lançamento de alguns torpedos que até causaram centenas de mortes na infantaria americana, durante os exercícios Tiger. Por outro lado as fugas de informação numa operação militar que pretendia envolver 1 milhão de homens, mais de 10.000 embarcações e outros tantos meios aéreos eram impossíveis de conter. Já naquela época um jornalismo extremamente liberal e que olvidava a importância dos “segredos de justiça” resultava invariávelmente em desastre, não fossem os responsáveis militares obrigados a confundir tudo e todos com informações carentes de sentido e verdade, bem como operações de invasão falsas como as de nome Fortitud North e Fortitud South marcadas para a mesma data mas em locais geográficos diferentes.
Actualmente as praias da Normandie são frequentadas essencialmente por um forte turismo de estrangeiros que procura o lugar físico da história e não os banhos. Visitam os museus, as localidades ou vilas próximas, tal como Formigny, Caen ou Cherbourg, procuram pelos memoriais e pelos imensos objectos e construções bélicas que por ali se encontram sem grande problema. Também e sobretudo, são lugares de visita obrigatória (para muitos, o propósito principal da sua visita) os cemitérios militares. Entre tantos outros, destacam-se o de La Cambe (alemão) o de Bény-sur-Mer (canadense) e o de Colleville-sur-Mer, que com os seus cerca de 70 hectares é apenas um dos 14 cemitérios americanos da II Guerra Mundial em solo estrangeiro. Este local está sob autoridade da ABMC (American Battle Monuments Commission), a comissão responsável por memoriais relativos a serviços e conquistas norte-americanas e cemitérios em solo estrangeiro.
Na capela do cemitério de Colleville-sur-Mer, encontra-se uma placa de mármore com a inscrição: I give unto them eternal life and they shall never perish.

sábado, 27 de setembro de 2008

Silva Porto (13)

O bairro do Cambulucuto é na entrada do Kuíto, perto do Aeroporto e quase a totalidade das casas que ali se encontram são feitas de adobe.
O Posto Médico de Razão Congo e Filhos Lda. também foi construído em blocos de argamassa de terra sêca, mas este por razões óbvias foi rebocado e pintado de branco.
Na fachada encontra-se pintado o lema “trabalhemos unidos como abelhas” e também uma publicidade relativa a um dos serviços prestados, a extracção de dentes.
Imagem captada em 2004 na cidade do Kuíto (antiga Silva Porto), Província do Bié, Angola.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Terror Háza

O edifício com o número 60 da Andrássy út em Budapeste é actualmente um museu. O museu é simplesmente o próprio edifício, anterior sede de distintas organizações políticas da Hungria.
Arrendado desde 1937 a uma associação (espécie de movimento) nacional-socialista, em 1944 chamava-se Hűség Háza (Casa da Lealdade) enquanto esteve instalada a direcção do “Partido cruz de flechas”, de iniciativas concertadas com o regime nazi da alemanha. A partir de 1945 e até 1956 o mesmo edifício albergou os serviços centrais da ÁVO e posteriormente da AVH, as polícias políticas do regime comunista.
A Andrássy út é uma avenida (alameda) classificada como património mundial pela Unesco, onde a beleza harmoniosa dos edifícios de finais do séc. XIX (neo-renascentistas) alinham com a larga via separada por árvores e onde a segunda linha de metro mais antiga do mundo percorre o eixo em subterrâneo e com paragens frente à “Casa da Ópera”.
Mas nas caves do edifício número 60 centenas de pessoas foram torturadas e mortas pelas mãos dos membros de um partido extremista que arrastou a Hungria para a destruição total (impossibilitaram o acordo político tentado por Horthy Miklós com diversos países que efectivamente cancelaria a aliança com a Alemanha), após terem sido exterminados (enviados para campos de concentração nazis) milhares de cidadãos húngaros judeus, ciganos ou “anti-sociais” e após outros tantos milhares de militares terem também perdido a vida na própria guerra que em 1944 estava literalmente perdida.
Com a ocupação (referida durante décadas como “libertação”) soviética de 1945, o PRO (Politikai Rendészeti Osztály, ou seja Departamento de Polícia Política) tomou conta das instalações sob ordem dos comunistas húngaros, que as transformaram em sede da ÁVO (Államvédelmi Osztálynak, ou seja Departamento de Segurança do Estado) e que posteriormente se passou a chamar de ÁVH (Államvédelmi Hatóságnak, Autoridade para a Segurança do Estado). As três organizações foram comandadas pela mesma pessoa, Gábor Péter, o aprendiz de alfaiate que se tornou mestre na perseguição política, instalando a vigia e a delação como armas, o interrogatório e a tortura como meio, a deportação e o assassinato como consequência.
O museu Terror Háza (Casa do Terror) é por um lado um monumento em honra das vítimas dos regimes dictatoriais opostos na Hungria, mas principalmente é uma memória que se pretende sempre viva sobre os erros do passado, para que não se repita.