sexta-feira, 20 de junho de 2008

Silva Porto (12)

Quando o tempo deixa de passar devagar e passa a imensurável, as questões existenciais esvanecem-se e o pensamento do indivíduo transforma-se ou torna-se mais propenso à concentração nos detalhes, observação e análise dos pormenores.
Era comum entrar e sair do mercado ou simplesmente estacionar à porta para cambiar dólares por maços gordos de kwanzas, bilhetes de 1000 normalmente, idênticos aos outros na imagem emparelhada de Eduardo e Agostinho, diferentes somente na côr, estes de um amarelo-pardo encardido. Outras vezes a comprar tabaco, invariávelmente em volumes tendo em conta o preço irrisório de cada unidade ou somente para encontrar frutas e legumes, a preço bem mais caro que no Tchissindo, mas logo ali à porta.
Certos dias havia, sabe-se lá como, coxas de frango e carapaus meio congelados, também peixe de rio sêco, cabeças de caprinos e galináceos. Mas a confiança, essa continuava depositada nos chouriços em lata da Sicasal, nas salsichas da Nobre e enlatados de atum das conserveiras lusitanas do costume.
Imagem captada em 2004 na cidade do Kuíto (antiga Silva Porto), Província do Bié, Angola.

2 comentários:

sombra e luz disse...

Estranho este mundo em que vivemos, James....
Não sei como faz, mas mesmo assim, há qualquer coisa na sua descrição de áfrica que a torna a meus olhos espantosa e primordialmente bela... na verdade a sua áfrica comove-me...

Mª João C.Martins disse...

Querido James
Há meses que te acompanho, atenta mas silenciosa. Leio com particular interesse e com um indescritível orgulho, os trabalhos que publicas neste teu delicioso blog.
O interesse está implícito no conteúdo e na qualidade da tua prosa, o orgulho esse encontra-se algures na complicada cadeia genética que possuímos.
Perguntarás a ti próprio porque nunca retirei o véu desta espreitadela meio "fetiche"que faço com regularidade ao teu blog.. Serei tentada a dizer-te: " Sei lá", como o livro de uma autora que se lesse o que escreves já teria deixado de publicar. Mas no fundo talvez saiba... é que fico sempre de tal forma embevecida quando te leio, que tudo o que sinto e penso a teu respeito me confronta com a surpreendente grandeza que revelas de ti e acrescenta sempre mais àquilo que eu sei que já és!
Acompanho-te à distância, mas hoje quis que soubesses que ando por aqui!
Um beijo enorme, talvez do tamanho do mundo que me tens dado a conhecer