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segunda-feira, 22 de junho de 2009

Santa Comba (5)

Fotografar crianças sempre era tarefa fácil em Angola, como provavelmente o será em outras paragens que tais, dado o fascínio que lhes merece a máquina e o preparo para a captação do momento numa imagem que depois nunca irão ver, mas acreditam.
Eles são uma dúzia porque nasceram quinze, sendo também verdade que nem todos desta dúzia chegarão a ser adultos. A lei da sobrevivência é a única lei assimilável... por não haver outra com mais razão ou por nada mais ter sentido.
Imagem captada em 2004 em Waku Kungo (ou Waco Cungo, ou similar), antiga Santa Comba (Cela), província de Kwanza-sul.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Silva Porto (16)

Aquele pequeno murete azul contorna o quarteirão, separa os tímidos canteiros junto à entrada da piscina, faz de vedação ao parque infantil e limita parcialmente o pátio do tribunal, em ruínas. No contexto da reconstrução e ampliação destas instalações para um novo Tribunal/Procuradoria provincial, o murete foi também reparado em seu redor e graciosamente abrangido o próprio parque.
A piscina terá sido um lugar aprazível nos anos setenta, quando havia água canalizada em quantidade e condições que enchessem aquele enorme tanque de azulejos azuis, com filtros e bombas a funcionar normalmente. A torre de saltos e o lugar das pranchas ainda lá está mas os poucos centímetros de água da chuva depositada no fundo é insuficiente para banhos, somente salva a míngua de milhões de mosquitos de uma névoa-enxame feroz. O cheiro da água pútrida e a probabilidade de ser picado centenas de vezes pela temível fémea Anopheles gambiae durante o tempo de tragar uma Cuca, não valiam a visita ao bar do complexo.
Imagem captada na cidade do Kuíto (antiga Silva Porto), capital da província do Bié, Angola em 2004.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Silva Porto (15)

Quem nunca combateu nada entende da guerra por mais que estude o assunto. Portanto o tema dos sintomas traumáticos que afectam psicologicamente alguns militares que participaram em guerras é assunto delicado, porque não é totalmente compreendido pelos restantes, por mais estudiosos que sejam e também porque provavelmente nem todos os pacientes obedecem a padrões de comportamento idênticos.
Tudo tem a ver com a morte, com os objectos, ruídos, imagens e idéias que de algum modo se relacionam com a dita.
O que é certo é que depois de voltar de Angola nunca deixou de ter receio de certas coisas que normalmente são inofensivas, ou seja, na Europa não deviam fazer sentido. Uma delas é evitar percorrer caminhos em terreiros, pisar bermas de estradas ou circular por fora dos passeios e fica mais nervoso quando entra numa mata ou num baldio. Observa escrupulosamente os marcos quilométricos junto às estradas e espera sempre que algum deles possa informar “zona minada”, uma imagem da morte.
Imagem captada junto aos encontros da estrutura metálica que substitui a anterior ponte sobre o rio Kukema, na estrada que liga o Kuíto (antiga Silva Porto) ao Huambo, Angola em 2004.

Silva Porto (14)

Exactamente na esquina oposta ao edifício Gabiconta fica o pavilhão gimno-desportivo do Kuíto. Aquilo parece não ter quase “ponta por onde se pegar” se calha de ser tentada alguma reparação.

O mais curioso é que apesar de nem sequer ter cobertura e não faltarem também orifícios por tudo quanto é sítio, de vez em quando são organizados ali alguns espectáculos.

Imagem capturada em 2004 no Kuíto (antiga Silva Porto), capital da província do Bié, Angola.

sábado, 27 de setembro de 2008

Silva Porto (13)

O bairro do Cambulucuto é na entrada do Kuíto, perto do Aeroporto e quase a totalidade das casas que ali se encontram são feitas de adobe.
O Posto Médico de Razão Congo e Filhos Lda. também foi construído em blocos de argamassa de terra sêca, mas este por razões óbvias foi rebocado e pintado de branco.
Na fachada encontra-se pintado o lema “trabalhemos unidos como abelhas” e também uma publicidade relativa a um dos serviços prestados, a extracção de dentes.
Imagem captada em 2004 na cidade do Kuíto (antiga Silva Porto), Província do Bié, Angola.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Silva Porto (12)

Quando o tempo deixa de passar devagar e passa a imensurável, as questões existenciais esvanecem-se e o pensamento do indivíduo transforma-se ou torna-se mais propenso à concentração nos detalhes, observação e análise dos pormenores.
Era comum entrar e sair do mercado ou simplesmente estacionar à porta para cambiar dólares por maços gordos de kwanzas, bilhetes de 1000 normalmente, idênticos aos outros na imagem emparelhada de Eduardo e Agostinho, diferentes somente na côr, estes de um amarelo-pardo encardido. Outras vezes a comprar tabaco, invariávelmente em volumes tendo em conta o preço irrisório de cada unidade ou somente para encontrar frutas e legumes, a preço bem mais caro que no Tchissindo, mas logo ali à porta.
Certos dias havia, sabe-se lá como, coxas de frango e carapaus meio congelados, também peixe de rio sêco, cabeças de caprinos e galináceos. Mas a confiança, essa continuava depositada nos chouriços em lata da Sicasal, nas salsichas da Nobre e enlatados de atum das conserveiras lusitanas do costume.
Imagem captada em 2004 na cidade do Kuíto (antiga Silva Porto), Província do Bié, Angola.

domingo, 4 de maio de 2008

Silva Porto (11)

De tanto chorar eram as dores de cabeça que lhe emprestavam um olhar doentio de olheiras carregadas. Nada parecia ter sentido, aquela nova vida era como um pesadelo, uma punição. E porque vomitava constantemente as refeições de que se enojava, sorte afinal no lugar de diarreias, sentia-se enfermo.
Sentado num banco de jardim, onde os canteiros não tinham flores e o lago não tinha água, seguia atentamente as crianças que brincavam, do outro lado da ponte, com carrinhos feitos de latas de salsichas e caricas.
Mais à frente duas outras crianças recolhiam o gasóleo que escorria junto à bomba de abastecimento. Ajoelhadas junto às pôças, raspavam com latas de sardinhas as pequenas quantidades que depois transvasavam para garrafas de vidro.
O abastecimento de combustível, embora incerto (não justificava a sensação de escassez que os distribuidores gostavam de alimentar, existiam bastantes opções concorrentes e os preços por litro eram irrisórios) satisfazia as necessidades de modo compatível com a procura.
Logo no primeiro dia constatou que naquela cidade a maioria da população era infantil e somente após uma semana deu conta de não existirem cães ou gatos, arrependeu-se de ter perguntado porquê. Com o fim da guerra passou a haver milho, mandioca, batata rena, tomate, arroz, açucar, óleo...
... e leite-moça (leite condensado) para ser misturado com água fervida.
Imagens captadas em 2004 na cidade do Kuíto (antiga Silva Porto), província do Bié, Angola.

sábado, 5 de abril de 2008

Silva Porto (10)

Domingo era o dia da semana destinado a passear e descobrir outros lugares diferentes ou simplesmente para tratar de re-abastecer a casa de água, lavar as viaturas, comprar ferramentas no mercado, ler, escrever.
Certo domingo foi de visitar as povoações que existiam para leste do Kunge, a norte do Kuíto.
Tal como já imaginava, o estado das estradas para esses lados não era diferente das outras, a maior parte do alcatroado já havia desaparecido, restavam alguns marcos quilométricos, as tabuletas “danger mines” e carreirinhos de pedras pintadas a vermelho e branco nas bermas. As pontes de eucalipto aguentavam bem o peso do Land Rover, fazendo sempre falta verificar o estado e a posição dos troncos e tabuado antes de atravessar. Os restos de betão e ferro retorcido provavam a anterior existência de pontes a sério.
A idéia inicial era chegar a Camacupa (antiga General Machado), mas ao fim de algumas dezenas de quilómetros e a lentidão que os devidos cuidados obrigavam, uma pausa para fotografar os armazéns do "Grémio do milho" e os restos do edifício da administração de Chipeta junto com o Soba, reduziram-se as intenções a não mais do que 50 quilómetros de afastamento (umas 3 horas de viagem) para retornar desde Catabola.
Catabola foi um antigo posto administrativo com o mesmo nome, Município de Nova Sintra, junto ao quilómetro 676 da linha dos caminhos de ferro de Benguela, criada em 1922 por decreto do General Norton de Mattos.
Tão similar a outras vilas e pequenas cidades de Angola, uma pequena rotunda na entrada, uma avenida principal com separador ao centro e um posto de combustível, depois um largo com corêto e parque infantil frente a uma igreja, um campo de futebol (Sporting Clube de Nova Sintra). Armazens de comércio e outros edifícios do tipo industrial foram em tempos o complemento da grande produção agrícola que os caminhos de ferro distribuíam.
Equipada com escolas primária e preparatória (nos últimos anos da administração portuguesa) a sede do município de Nova Sintra foi certamente um lugar agradável e próspero.
Nesse domingo, aconteceu na vila algo parecido com uma procissão, cantares religiosos de devoção cristã muito ordenada e séria... porque Angola não somente herdou a língua, mas também a religião dos portugueses.
Imagens captadas em Catabola (antiga Nova Sintra), província do Bié, no ano 2004.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Nova Lisboa (5)

A construção de torres em Nova Lisboa foi uma idéia da década de 70 durante a administração portuguesa.
A partir de 1975 deixou de existir Nova Lisboa, a cidade foi renomeada para Huambo, que já o tinha sido desde a sua fundação em 1912 (por diploma legislativo do General Norton de Mattos, governador da colónia de Angola) até ao ano de 1928.
Com o fim da administração portuguesa e o êxodo de cidadãos brancos, as torres (assim como outros edifícios) foram ocupadas rapidamente por cidadãos pretos que não distinguiram na sua necessidade as que eram habitáveis das que ainda não estavam terminadas.
Um fenómeno muito idêntico, diga-se de passagem, aconteceu na afamada Quinta do Mocho ali para os lados de Sacavém, a norte de Lisboa e sensivelmente na mesma época. Passaram mais de duas décadas desde esse momento quando as autoridades conseguiram resolver o problema com processos de realojamento, demolição dos imóveis e alguma remodelação urbana.
Mas no Huambo isso não aconteceu, algumas torres ainda por cima foram danificadas por granadas, projécteis de morteiros e outros que tais explosivos, nunca deixando de ser habitadas e adaptadas sem qualquer lógica de propriedade horizontal ou vertical.
A falta de uma pressão adequada na rede de abastecimento de água e uma distribuição eléctrica bastante irregular agravam as condições actuais de habitabilidade nos edifícios mais altos de Huambo, onde raramente se encontram apartamentos com casas de banho a funcionar bem como elevadores (as caixas e colunas dos elevadores serviram como depósitos de lixo até ao ponto de ser quase impossível de respirar nas partes comuns, escadas e acessos).
Imagens captadas em 2004 na cidade do Huambo, província do Huambo, Angola.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Kimbos

Numa concepção européia são duas crianças junto às suas casas. Mas no seu mundo que é tão diferente do primeiro, são já adultos, porque a esperança média de vida será de uns 34 ou 35 anos de idade, como sempre foi desde o início do universo.
Os conjuntos de cubículos feitos de adobe são os Kimbos, onde famílias se juntam sob o comando de um Soba (homem mais velho, respeitado pelos demais, chefe e representante da comunidade de um Kimbo, normalmente conhecedor de algumas artes de magia ou adivinhação, sabedoria e poder de decisão e regulação de conflitos), posição que herdou de seus antepassados na maior parte dos casos.
Os cubículos são construções simples, ecológicas e biodegradáveis, sempre iguais entre elas (apesar de existirem duas técnicas posíveis, blocos de argamassa de terra empilhados ou o revestimento de uma estrutura de madeira com argamassa de terra), sempre iguais desde há milhares de anos.
A matéria prima é a que o solo entrega, basta escavar, juntar água e amassar. Os moldes de madeira e a compressão manual dão a forma aos blocos que depois secam ao sol.
Dentro de um cubículo é provável encontrar objectos como uma colher, uma panela (essencial para fazer o funge) talvez uma esponja ou um cobertor e pouco mais. Ali não se encontrará mobília nem electrodomésticos, não há electricidade nem água, não há roupa para mudar nem comida para guardar. Todavia isso não traz nenhum sentimento de infelicidade ou desapontamento aos seus habitantes porque sempre assim foi, sempre assim será, nunca conheceram coisa diferente nem sonham que venha a ser.
Imagens captadas em 2004 no Kunge, perto do Kuíto (antiga Silva Porto), província do Bié, Angola.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Silva Porto (9)

Se o militar intenta namorar a vendedeira... o pão que esta traz no alguidar é demasiado rijo e tem um sabor indefinido... o edifício da esquina já foi reparado, mas o maior que se vê por detrás ainda não, ainda tem pendurado um retorcido letreiro luminoso... uma criança observa encostada a um marco dos Correios, que ali nunca foi vermelho mas verde, somente uma peça de metal cilíndrica, oca e sem porta que ninguém compreende para que serve ou serviu, coisas dos "bránco".
O antigo poste de iluminação está repleto de pequenos orifícios, algumas balas de Ak 47 ainda ali estão cravadas... os cabos eléctricos aéreos ligam a uma rede impressionante de distribuição favorecida de electricidade desde um gerador instalado para uso exclusivo do governador da província do Bié... uma motorizada de marca Nanfang afasta-se depois de ter passado junto ao terreiro onde alguns esperam sentados pela vez de recolherem água de um poço. Essa água servirá para beber e para cozinhar, embora as probabilidades de contaminação sejam elevadas, tendo em conta que ao redor do poço foram exumados alguns corpos semanas antes... o quintal por detrás tem uma nespereira e uma latada em redor da casa, videira que não é podada há décadas e por isso não dá nada.
Imagem captada em 2004 na cidade do Kuíto (antiga Silva Porto), província do Bié, Angola.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Nova Lisboa (4)

O edifício da Delegação Provincial da Agricultura do Huambo está situado exactamente na mesma praça (rotunda) do edifício do Governo da Província e também dos correios. Apesar de terem sofrido alguns danos, o aspecto é sim idêntico à origem, arquitectura da década de 70.
A organização urbana de Nova Lisboa faz dela uma cidade quase perfeita, onde avenidas e jardins foram planeados do modo mais inteligente, tanto na cidade baixa como na cidade alta. Certas praças e largos fazem lembrar determinadas zonas de Almada ou Barreiro, algumas ruas, a Amadora e Benfica.
Por outro lado não existem outras cidades portuguesas que tenham sido planeadas como esta, onde ruas e avenidas formam bairros inteiros de moradias, onde diferentes quarteirões têm edifícios de altimetria equivalente mas similar entre eles, perfeitamente, pois nasceu desse modo.
O tal edifício da Agricultura está uma lástima por dentro, faltam portas e janelas, o pavimento desapareceu em algumas salas e as instalações sanitárias deixaram de funcionar há muito, todavia parece que há intenções de o renovar.
No Huambo encontram-se já hotéis e restaurantes em condições aceitáveis para um europeu, um mundo completamente diferente do experimentado no Kuito ali tão perto.
Em termos de aeroporto, pista para aviões vá, é verdade que a do Huambo tem condições para a aviação comercial e a do Kuito somente para aparelhos militares, embora a segunda tenha uma zona cómoda e coberta com cadeiras para os passageiros em espera, e a primeira não tenha, é ali no meio da pista e ao sol que o pessoal espera pela boleia... enquanto um guarda vigia, sentado numa sucata qualquer, a movimentação de estranhos ao local e intrusos com ousadia de ultrapassar a vedação que já não existe.
As peças de artilharia anti-aérea também ali estão, reunidas num trio obsoleto que provavelmente não voltará a ser utilizado, esperemos.
Imagens captadas em 2004 no Huambo (antiga Nova Lisboa)

domingo, 14 de outubro de 2007

Nova Lisboa (3)

Edifícios de habitação, ao acaso ou por falta de pontaria também foram alvos da artilharia utilizada no Huambo, em Março de 1993 quando a Unita tomou a cidade, em Novembro de 1994 quando as Forças Armadas Angolanas recuperam o controlo e novamente em Dezembro de 1998, com mais violência, durante um cerco da Unita à segunda maior cidade de Angola.

Tal como no Kuíto, a guerra civil de Angola provou a excelentíssima qualidade da construção civil portuguesa (existem edifícios que se mantêm “de pé” de um modo matemáticamente impossível).

Em termos imobiliários, sobre direitos de propriedade ou eventuais ressarcimentos... tudo é relativo tendo em conta que a maior parte dos edifícios em condições de serem habitados foram ocupados por novos moradores a partir de 1975, sem lei nem regra aplicável.

Imagens capatadas em 2004 no Huambo (antiga Nova Lisboa)

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Teixeira da Silva

Aquilo é uma vila de “meia dúzia” de casas à volta de uma rotunda, desde a independência de Angola com o nome de Bailundo. Este nome tem razões históricas que devem ser consideradas, era o nome de uma inteira região que assumia o nome do seu primeiro rei.

O reino do Bailundo durante séculos sofreu ataques das tropas portuguesas até ao ano de 1896 em que o capitão Justino Teixeira da Silva derrotou o Rei Numa II que havia sucedido a Ekuikui II.

Desde o lugar da embala (casa grande) do rei nasceu a vila Teixeira da Silva, onde os portugueses se estabeleceram e dedicavam essencialmente à agricultura e comércio, município integrado na província do Huambo.

Actualmente, na própria rotunda é exibida uma estátua do soma (soberano) Bailundo.

Bailundo (Teixeira da Silva) é passagem obrigatória no percurso entre Luanda e Kuíto (Silva Porto) ou Luanda e Huambo (Nova Lisboa) pelo interior: Luanda - Catete - Dondo - Quibala - Waco Kungo (Santa Comba) - Alto Hama – Bailundo – Chinguar... e a partir desse entroncamento, Huambo para oeste, Kuíto para leste.

Imagens captadas da vila Teixeira da Silva (Bailundo) em 2004

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Santa Comba (4)

A Igreja matriz de Santa Comba Dão (pequena cidade da Beira Alta, na margem do rio Dão, albufeira da Aguieira) começou a sua construção em 1725 e foi inaugurada em 1755 e é um dos vários exemplares de barroco tardio em Portugal. Guarda na capela-mor um belo retábulo de talha e o tecto é em “caixotões” enquadrando pinturas com cenas da vida da Sagrada Família.
A Igreja de Santa Comba (nome substituído por Cela e posteriormente Waco Kungo, pequena cidade da província do Kwanza Sul, Angola) é uma cópia quase fiel da Igreja matriz de Santa Comba Dão, construída 200 anos depois.
Apesar dos sérios danos provocados pela guerra civil na cobertura e nas fachadas, o edifício foi devidamente recuperado.
A imagem da Igreja de Santa Comba Dão não é propriedade do autor, somente a respeitante à Igreja de Santa Comba, captada em 2004.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Gabela

O que mais o preocupava no retorno ao Waco Kungo (antiga Santa Comba, Cela) era o tempo, havia saído do Sumbe (antigo Novo redondo) já depois do meio-dia e provavelmente ao passar Quibala a noite cairía, naquele súbito muito próprio de Angola. Esses últimos 75 quilómetros ofereciam mais perigo, que os assaltos à mão armada eram prováveis à passagem pelas pontes metálicas provisórias ou então junto às grandes crateras provocadas pelas minas onde jaziam carcaças de blindados e o desvio cuidadoso pelas bermas era a única opção (passar pelas pontes com o Land Rover era sempre um serviço lento e de grande perícia tendo em conta que nem todas as chapas de revestimento do pavimento bem como respectivas travessas restavam).
Todavia a parte do percurso que mais o aborrecia, pese ser também a mais interessante em termos de paisagem, eram aqueles quilómetros antes e depois de passar Gabela, por razões distintas, a ver com a imensa quantidade de animais a evitar atropelo, e pelo estado muito pior das estradas em zona montanhosa, que as águas de chuva sulcam laivos profundos no terreno onde não convinha enfiar as rodas em riscos de capotar.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Silva Porto (8)

Cuíto (ou Kuíto como apeteça a quem não se interessa de como se escreve o que se diz) é exemplo da mais lamentável destruição patrimonial - onde a estupidez política e militar soube arrasar uma cidade quase perfeita - na República Popular de Angola.

Uma avenida de separador central “rasga” esta pequena cidade em duas partes, rematada nos topos por uma rotunda e por um largo.

Numa das partes encontramos escolas, institutos, um mosteiro, edifícios governamentais, um pavilhão, hospital, moradias.

Na outra, o mercado, os bancos, o tribunal, os correios, a residência do governador, a igreja, o hotel, a piscina e muito comércio em lojas e armazéns.

Cuíto foi cidade auto-suficiente, tinha de tudo... cafés, restaurantes, padarias, supermercados, cabeleireiros, drogarias, carpintarias, fábrica de discos, outra de tijolos e telhas, campo de futebol, barragem, produção termo-eléctrica, oficinas, parques infantis, jardins, fontanários, aeroporto.

Na rotunda de entrada uma bomba de combustível, descendo a referida avenida central encontramos outras duas.

Frente ao hotel Girão bem como no Jardim central existiam oficinas completas também com combustível.

O centro é um jardim frente a um largo onde se implantaram em simetria majestosa os palácios do governo e assembleia municipal.

Esse jardim é ladeado pela estação de correios e pela igreja.

Uma pequena ponte, por entre calçada e canteiros facilita num modo artístico a travessia pedonal por cima daqueles tanques forrados a azulejos azuis, de altimetria diferenciada de modo a que à agua se movesse em cascata e se renovasse bombada, onde duas esbeltas e desnudas jovens brancas em bronze se precipitavam ao banho.

A capital do Bié, na província ultramarina portuguesa de Angola, chamava-se Silva Porto e não era nada disto que observamos... exceptuando aquelas duas estátuas de uma beleza unica, eróticas portanto, mas representando a felicidade de um povo que ali chegou a acreditar o paraíso.
Neste artigo publicado, somente a primeira, a quinta, a sétima, a oitava e a décima-primeira imagem são propriedade do autor, captadas em 2004